Descrição de chapéu Tóquio 2020

Projeto de wrestling inclui meninas e tenta se manter virtualmente

Ação é comandada por Aline Silva, principal nome do Brasil na modalidade

São Paulo

Nos treinos de wrestling, judô ou jiu-jítsu, Aline Silva, 33, sempre se incomodou por ser minoria. Pelo menos 90% dos colegas eram homens. "Se você perguntar para outras mulheres que praticam luta, elas vão dizer a mesma coisa", afirma.

Principal nome do wrestling brasileiro e com vaga garantida na Olimpíada de Tóquio, prevista para o próximo ano, ela comanda uma ação para aumentar o número de mulheres no esporte.

Em 2018, Aline criou o Mempodera, projeto social no bairro Jardim Nova República, conhecido como Bolsão 8, em Cubatão, na Baixada Santista.

Aline Silva em luta com adversária
Aline Silva Pan de 2019 - Abelardo Mendes Jr - 9.ago.19/rededoesporte.gov.br

Ela não tem um número fechado, mas calcula que cerca de 150 meninas de 8 a 15 anos passaram pelo programa, que oferece aulas de wrestling e inglês. Com as turmas de garotas consolidadas, foram abertas vagas também para meninos, em horários diferentes.

"As aulas são separadas para garantir espaços seguros psicologicamente e emocionalmente. As meninas podem treinar um esporte em que a sociedade ainda desencoraja sua participação", diz Aline.

Por trás da iniciativa está o desejo de que o wrestling possa ser para as garotas o que o judô foi para ela quando criança: a ferramenta que mudou sua vida.

A atleta foi internada em coma alcoólico quanto tinha 11 anos. Sua mãe, Lidia, que passava o dia inteiro fora de casa por causa do trabalho, ficou alarmada.

Tirou a filha da escola que frequentava e a colocou em outra, onde ela fez novos amigos e passou a ter outras influências. Foi quando descobriu o judô. Aline reconhece que o esporte alterou seu comportamento e lhe deu disciplina.

Anos depois, quando já era atleta do Centro Olímpico, em São Paulo, atendeu ao pedido do técnico para participar de uma competição de wrestling porque, segundo ele, seria parecido com o judô.

Garotas do programa social Mempodera, criado por Aline Silva
Garotas do programa social Mempodera, criado por Aline Silva - Divulgação/Mempodera

Depois de competir no Madison Square Garden, em Nova York, aos 17, e perceber que a luta tinha relevância internacional, apostou no esporte. Três anos depois, foi medalhista de prata no Mundial júnior. Obteve a mesma colocação no Mundial adulto de 2014, na categoria até 75 kg. Disputou a Olimpíada do Rio, em 2016, e perdeu nas quartas de final.

Em 2017, durante um intercâmbio nos Estados Unidos, ele começou a colocar em prática a ideia que já tinha de criar o Mempodera.

"O projeto é para poder equilibrar, desconstruir as mentes machistas e mostrar que as meninas podem, sim, ser o que elas quiserem. O problema é a sociedade achar que esportes de lutas são para homens", afirma.

Aline recebe ajuda do GSMP (Global Sports Mentoring Program), a instituição que lhe ofereceu o intercâmbio, e também outras doações em dinheiro e equipamentos para manter as aulas, três vezes por semana com uma hora cada uma. Isso até aparecer a pandemia de Covid-19.

"Estamos com aulas virtuais, mas com apenas 10% dos alunos", lamenta.

O maior problema é ter acesso à internet. Por isso ela lançou um financiamento coletivo para comprar créditos de celular, assim as alunas podem assistir às aulas virtuais. Agora o Mempodera busca doações de celulares e computadores usados que possam ser entregues às meninas.

É um contratempo para quem está acostumado a superá-los, ainda mais em um esporte que não conta com grande visibilidade no Brasil.

Convidada para participar de um projeto de wrestling em 2007, Aline se mudou para Curitiba. Os planos não deram certo, a iniciativa naufragou e ela ficou sem lugar para treinar.

Migrou para o jiu-jítsu e, para sobreviver, vendeu alfajores e fez bicos como segurança em banheiros de casas noturnas. Apenas em 2009, quando voltou a São Paulo, convidada pelo Sesi, se reencontrou com seu esporte favorito.

"Eu digo que não abandonei o wrestling, o wrestling me abandonou. Eu tinha bolsa de estudos e precisava me formar. Então decidi ficar", conta ela, que hoje é formada em educação física e estética.

A pandemia lhe traz um contratempo maior para os treinos porque a modalidade depende do contato físico com a adversária.

"Minha preparação olímpica está no confinamento. Espero que tudo melhore e eu possa voltar a treinar normalmente. Estou cuidando bastante da parte física. Para fazer a luta em si eu teria de me expor e decidi não fazer isso. Talvez depois eu tenha mais tempo de me preparar e dar o meu melhor", completa.

O projeto, que depende do trabalho de voluntários, pode receber doações por meio do site mempodera.com.

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