Descrição de chapéu Tóquio 2020

Sabemos que há locais para o atleta se manifestar ou não, diz Ana Marcela

Nadadora afirma que não escolheria o mesmo momento de Carol Solberg para protestar

Santos

Ana Marcela Cunha, 28, considera ter vivido quase um mundo à parte durante 50 dias. Há três semanas, a nadadora retornou da Europa após um período intenso de treinamentos e de competições ao lado de outros atletas selecionados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB).

O cenário é quase inédito durante o ano, atrapalhado devido à pandemia do coronavírus, e só foi possível pela ida a Rio Maior, a cerca de 75 km de Lisboa. A cidade de apenas 10 mil habitantes conta com um moderno e isolado complexo esportivo, além de baixos números de Covid-19.

Antes disso, ela nadou a maior parte do tempo em casa com a ajuda de um equipamento ergonômico que simula a movimentação e o esforço feito na piscina.

“Em um mundo como está hoje, por tudo o que vivemos em nosso país, poder voltar competir e se sentir seguro é um privilégio”, diz à Folha. “Passamos por um momento bem complicados: confinados, treinando sem piscina, com CTs e academias fechados."

O período fora do país, estimado inicialmente em três semanas, acabou prolongado pelo estafe da nadadora por um calendário de competições que não ocorria desde 15 de fevereiro, quando disputou a etapa de Doha do Circuito Mundial de maratonas aquáticas.

Foram quatro medalhas no período –nas travessias de Capri-Napoli, em Funchal e nas etapas de 5km e 10 km do Campeonato Francês de Maratonas Aquáticas, realizadas na Ilha de Jablines-Annet, em Seine-et-Marne.

Ainda houve um baque, quando seu técnico Fernando Possenti perdeu a mãe, vítima de câncer. A nadadora prestou homenagem a Possenti com uma touca confeccionada por um de seus patrocinadores.

“Queria muito mostrar a ele o quanto estamos juntos. Precisamos disso, sermos mais humanos. Digo que esses 50 dias valeram por um ano, foi muita coisa. Aproveitamos muito para reavaliar a vida, também", conta.

De volta ao Brasil, Ana Marcela se deparou com assuntos importantes em discussão no esporte. Um deles, a manifestação política da atleta Carol Solberg, no fim de setembro.

Durante uma entrevista após etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, a jogadora gritou “Fora, Bolsonaro”. Na terça (13), foi julgada e advertida pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) da modalidade.

“Eu sou muito a favor de cada um se expressar, poder opinar, mas, ao mesmo tempo, a gente sabe que tem locais que você tem que fazer isso, ou não. Se aquele momento foi o ideal para ela, tudo bem. Eu jamais faria um pronunciamento ou daria uma opinião naquele momento. Hoje temos as redes sociais abertas e podemos fazer isso a qualquer hora”, afirma.

O caso teve grande repercussão nas redes sociais, e a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) se posicionou contrária à manifestação.

“Consigo dividir bem as coisas. Não gosto de criticar, realmente, mas falando da Carol, acho que ela está certa de falar. Talvez, não foi o local ou a maneira correta. Acho que existem outros jeitos de serem feitos, também não estou recriminando ela ter feito aquilo”, pondera.

Antes da viagem para Portugal, causou repercussão uma foto do primeiro grupo de brasileiros que rumou para a Missão Europa do COB. De 15 nadadores, somente uma mulher estava presente, a gaúcha Viviane Jungblut.

A imagem foi a deixa para uma fila de manifestações, entre elas a da ex-nadadora de águas abertas Poliana Okimoto, que publicou nas redes sociais desabafo sobre a falta de apoio às mulheres.

"Antes de a Missão Europa acontecer saiu um boletim com a convocatória. Todos sabiam de todos os atletas, nada e nem ninguém foi pego de surpresa. Foi feita uma escala, todos sabiam. Acabaram esperando o momento da viagem, de uma foto sair, para criticar, para poder falar”, diz Ana Marcela.

“Hoje tenho 90% de convicção que na natação as mulheres recebem o mesmo que os homens, não tem um abismo entre homens e mulheres. Muitos clubes pagam pela pontuação nos campeonatos, seja homem ou mulher. É o justo. Por que o homem evolui mais do que a mulher? Aí sim precisamos ver o que há de errado”, acrescenta.

Os protestos levaram a uma série de discussões entre nadadoras e a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos em busca de um projeto para alavancar a natação feminina.

Dona de 11 medalhas em campeonatos mundiais, Ana Marcela tinha como estratégia chegar menos visada a Tóquio, sumindo de olhares da mídia e de suas principais adversárias.

Em 2019, ela viveu o que considerou o melhor ano de sua vida. Conquistou dois ouros no Mundial na Coreia do Sul, nas provas de 5 km e 25 km, e, menos de um mês depois, um primeiro lugar inédito na modalidade para o Brasil nos Jogos Pan-Americanos, em Lima, no Peru.

A nadadora ainda venceu cinco etapas do circuito de maratonas aquáticas e foi eleita em novembro pela revista americana Swimming World, a mais importante sobre o esporte, a melhor nadadora do mundo em águas abertas.

“Esse adiamento da Olimpíada será bom para mim e para todo mundo. Querendo ou não, estamos começando um novo ciclo olímpico dentro de um mesmo. Acho que ajuda a seguirmos para 2024. Assim que acabar a Olimpíada tenho mais dois anos para me preparar novamente, me manter nesse nível”, analisa.

Ela sonha com a medalha que lhe falta na carreira, mas até lá evita planos longos e faz projeções mais imediatas. Em dezembro, participará de duas competições na Bahia, uma delas envolvendo o instituto que leva o seu nome. A outra será nem Manaus, o Rio Negro Challenge, maior evento de águas abertas da região Norte.

Ana Marcela Cunha, 28

Nascida em 23 de março de 1992, em Salvador (BA), é nadadora especialista em provas de longas distâncias em águas abertas. Tem 11 medalhas em mundiais (5 ouros, 2 pratas e 4 bronzes) e foi seis vezes escolhida a melhor nadadora do mundo em águas abertas. Atleta militar, ela é beneficiária também do programa Atleta Pódio do governo federal.

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