De apoios a ameaças, Carol Solberg vive turbilhão após 'fora, Bolsonaro'

Atleta de vôlei de praia lida com expectativas dos fãs e espera absolvição como recado

São Paulo

Na última quinta-feira (12), quando treinava na areia de Ipanema, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg ouviu duas pessoas passarem pelo local e gritarem "fora, Bolsonaro!" em sua direção. Mais tarde, a cena se repetiu quando a atleta de 33 anos chegava para uma consulta médica no Rio de Janeiro.

São apoios recebidos pela manifestação feita por ela com o mesmo grito de protesto contra o presidente da República, durante uma entrevista ao vivo após etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, em Saquarema, no dia 20 de setembro.

O ato fez Carol, filha da ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado, ficar conhecida fora do mundo esportivo (o número de seguidores dela no Instagram passou de 21 mil para 118 mil em dois meses) e provocou algumas mudanças na sua vida. Nas redes sociais, novos fãs passaram a criar expectativa sobre suas posições políticas.

"Às vezes me mandam uma entrevista com várias perguntas, sobre o que eu acho disso, se a esquerda tem que se juntar, o que está faltando. Eu não sei. Adoraria saber, mas não tenho resposta, então não tenho que achar muita coisa sobre tudo", afirma em entrevista à Folha.

A atleta também relata ter recebido ameaças de apoiadores do presidente, que a fizeram evitar seu local de treinamento nos dias seguintes à manifestação.

Carol foi denunciada pelo protesto ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) do vôlei, sob acusação de ter prejudicado a imagem da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e/ou de seus patrocinadores. O principal deles, desde 1991, é o Banco do Brasil.

Em outubro, a 1ª Comissão Disciplinar do tribunal desportivo a considerou culpada, estabelecendo uma multa de R$ 1.000 convertida em advertência. Sua defesa recorreu da decisão, e o novo julgamento está marcado para esta segunda (16).

"Meu caso tomou uma dimensão muito grande. Acho que eu ser absolvida teria, sim, uma importância no esporte. Seria um momento importante para os atletas terem convicção, se colocarem", diz.

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O que mudou na sua vida desde o protesto? Viver nesse turbilhão que tomou proporções enormes e manter minha rotina de treinamento, que é onde tenho que render bem. Tenho que prestar muita atenção para não cair nos treinos e conseguir ter meus momentos. Consigo me equilibrar estando 100% no treino na hora em que estou no treino, com meus filhos quando estou com meus filhos, com meu marido... Tentando viver entre o turbilhão e o equilíbrio.

Hoje muitos comentários nas suas redes sociais são protestos políticos. Parece que as pessoas passaram a ter uma expectativa nos seus posicionamentos. Como é lidar com isso, tanto nas redes sociais quanto nas ruas? Hoje [quinta-feira] por acaso aconteceram muitas vezes, foi muito louco. No meio do treino passaram duas pessoas gritando “fora, Bolsonaro!”, uma correndo e outra de bicicleta. Quando pisei no elevador para ir ao médico o cara gritou “fora, Bolsonaro!”, levei um susto. E tinha uma mulher do meu lado que eu achei que era [apoiadora de] Bolsonaro, ela ficou com uma cara meio assim [risos]. Tem rolado vários episódios muito engraçados. Teve um dia em que eu saí na rua, tinha um grupo de caras sem máscara me olhando e eu falei: “caraca, melhor ficar ligada”. Aí todos começaram a gritar “fora, Bolsonaro!”, e eu: “ufa”.

Sofri também várias ameaças, teve uma galera pesada, comentários bem esquisitos. Isso fez com que de alguma forma eu ficasse mais ligada na rua. Esse é um governo que acabou dando aval para pessoas que têm esses pensamentos tão retrógrados e uma coisa violenta, de incitação ao ódio. As pessoas acharem que podem ofender gratuitamente. Senti isso como uma coisa real, esse medo de achar que tenho que ficar atenta. Nos primeiros dias [após o protesto] não quis treinar onde treino [normalmente], preferi estar em outro lugar. Foi esquisito, mas num geral teve muito mais apoio.

As ameaças foram mais no ambiente virtual? Só no virtual, não teve nada fora da internet. Mas tem isso que você falou da expectativa. De repente as pessoas começam a me perguntar sobre tudo, e eu não tenho resposta para muita coisa. Estou aprendendo. Adoro política, mas gostaria de saber muito mais, me aprofundar. Não tenho tempo, mas tento ler o que consigo. Como acabei indo para um lugar que sai dessa coisa do esporte, me vi prestando muito mais atenção na forma como vou me colocar. Me instigou a estudar, ler e escrever muito mais. Tem até uma coisa um pouco pretensiosa, porque às vezes me mandam uma entrevista com várias perguntas, sobre o que eu acho disso, se a esquerda tem que se juntar, o que está faltando. Eu não sei. Adoraria saber, mas não tenho resposta, então não tenho que achar muita coisa sobre tudo.

Isso pode mostrar uma certa carência das pessoas? Talvez por poucos atletas se manifestarem politicamente, quando um faz carrega um peso grande. Não sei se a palavra seria carência. É mais expectativa mesmo. Eu sou só uma jogadora de vôlei de praia, não sou um grande ídolo do esporte, mas acho que as pessoas têm isso nessas figuras, de que um grande ídolo se posicione neste momento do país. Não que eu ache que a pessoa tenha que se manifestar sobre tudo, o tempo inteiro. Muita gente fala: “ah, se liberar os atletas vão ficar falando sobre tudo”. Não, acho que são momentos divisores de águas. Tanto que você vê a força do movimento dos atletas nos EUA, o que rolou no basquete em relação ao voto, dando voz à luta antirracista. Isso tudo acontece num momento em que a sociedade pede isso, tem essa expectativa de que pessoas com voz se posicionem pelas que não têm. O esporte representa muita coisa, então seria natural ter esse posicionamento. Deveria até ser incentivado o posicionamento político.

Sobre incentivar os posicionamentos, algumas pessoas dizem que manifestações políticas podem descaracterizar o esporte. Qual é a sua opinião sobre isso? Não tem nada a ver. Um grande exemplo é a comparação com as artes. Os artistas podem se manifestar da forma que quiserem quando você vai a um show, por exemplo, mas muitos não gostam de se manifestar. Outro dia li uma entrevista do Ney Matogrosso, que é um cara que eu adoro e que não gosta de se manifestar politicamente nos shows. Para ele, aquilo não tem nada a ver. Mas se outro gosta e acha isso importante, não dá para ter censura. Não é porque eu gritei “fora, Bolsonaro” que toda vez vou querer falar alguma coisa. Quando você está num torneio, está focada naquilo. Mas se você está vivenciando uma causa, ou se está indignado com o governo, é natural que quando esteja dando uma entrevista expressar o que está sentido sem ficar sendo podado.

A primeira decisão do STJD, que a advertiu, influenciou na sua escolha de não fazer um outro protesto nos últimos torneios? Meu grito foi totalmente espontâneo, não vou ficar planejando agora o que eu vou fazer, se vou falar isso ou aquilo. Eu sou jogadora de vôlei, é o que eu amo fazer e quero continuar me preparando para os torneios da mesma forma. Não entro em quadra pensando na entrevista que vou dar, até porque se perder o jogo não vou dar entrevista nenhuma. Agora, se eu sentir, achar que tenho, se for fundamental para mim, eu vou me posicionar. Como estou recorrendo e espero muito ser absolvida, ainda estou esperando, mas indo para o torneio pensando em dar o meu melhor.

A punição de advertência não teve nenhuma consequência esportiva ou financeira para você. Por que decidiu recorrer dela? Porque fiquei indignada com a forma como aconteceu o julgamento. Aquele último voto, do presidente da comissão [Otacílio Soares de Araújo], a forma como se deu a advertência para mim foi totalmente uma censura. O cara falou que eu não estava ali para dizer o que pensava, que eu tinha que me limitar a dizer simplesmente o que aconteceu nas quatro linhas, que tinha me dado um puxão de orelha, um susto. Aquilo para mim foi totalmente desrespeitoso. Tenho certeza que não fiz nada de errado e acho que não tem que ter advertência nenhuma. O termo que assinei era dizendo que não podia me manifestar de uma forma que prejudicasse a CBV ou o Banco do Brasil. Não falei mal nem do Banco do Brasil nem da CBV. Simplesmente manifestei minha indignação com esse governo.

Acredita que o resultado final do julgamento poderá ter repercussão maior no esporte, como um recado? Meu caso tomou uma dimensão muito grande. Acho que eu ser absolvida teria, sim, uma importância no esporte, para os atletas olharem, "a gente pode", não precisaria desse medo. Seria um momento importante para os atletas terem convicção, se colocarem. Não podemos conviver com regras do século passado. Muitos falam que os atletas têm que ser exemplos para jovens, crianças. Como se pode ser exemplo se você não pode falar o que pensa? É um corpo só, um fantoche ali jogando e não pode falar da sociedade, do que está acontecendo ao seu redor, das causas em que acredita?

Você esperava ter recebido mais apoio de atletas, principalmente de pessoas do vôlei? Muita gente tem contrato de patrocínio, fica com medo, e esse medo procede, porque várias pessoas sofreram punições. Seria legal se a gente usasse esse momento para se unir e lutar para o atleta ter a sua voz. Mas não tenho essa expectativa porque sei também quanto é difícil para um atleta que, na adolescência, tem que decidir entre estudar ou se dedicar integralmente a um esporte. Muito cedo no Brasil o atleta luta por um prato de comida, ter uma estrutura de treinamento bacana, então é difícil ser instigado sobre o que está acontecendo. Claro que tem várias pessoas antenadas e que optam por ficarem quietas. Mas muitos com medo, e faz sentido. O que precisa mudar são essas regras, para o atleta ter liberdade.

Quanto sua mãe, Isabel, influenciou sua formação cultural e ideológica, além da esportiva? Minha mãe influencia em tudo na minha vida, troco com ela sobre tudo o que acontece. Ao longo da vida minha mãe sempre instigou a gente a pensar além, a estar atento ao que acontece não só no nosso mundinho. Claro que a gente fala de vôlei, é o nosso trabalho, mas sempre falou sobre tudo. E política está nesse bolo.

Como ficou seu relacionamento com a sua dupla, Talita, depois do protesto? A Talita é atleta militar, faz parte do programa do Exército [para atletas de alto rendimento], então ela não pode se manifestar politicamente sobre nada. Meu técnico [Renato França] é um cara super inteligente. Antes do campeonato em que rolou esse episódio fomos conversando sobre tudo o que está rolando. Provavelmente no meio esportivo é a pessoa com quem eu mais tenho essa troca. E ele é marido da Talita. Em relação a isso ela só me deu força, queria que acabasse logo o julgamento para a gente poder jogar. Não quis se envolver muito, mas não me passou nenhuma pretensão. Ela falou: “você acredita nisso, fez o que estava com vontade, vamo embora e tamo junto”.

A exposição do episódio pode ajudar ou atrapalhar na busca por novos patrocinadores? Sei que tem muita marca que não gosta de assuntos polêmicos, de falar de política. Isso afasta algumas. Mas acho que marcas bacanas deveriam achar isso legal. O meu patrocinador [Jungle, marca de isotônico], por exemplo, não se posiciona politicamente, mas acredita que posso dar minha posição quando quiser.

CAROLINA SALGADO COLLET SOLBERG, 33

A atleta carioca nasceu no dia 6 de agosto de 1987. Filha da ex-jogadora Isabel Salgado, começou a jogar vôlei de praia, aos 9 anos, na escola da mãe. Com a irmã Maria Clara, foi medalhista de prata do Circuito Mundial (2003) e do Brasileiro (2007 e 2014/2015). Carol também teve como parceiras Ágatha e Juliana. Com Maria Elisa, conquistou o título brasileiro de 2017/2018 e foi eleita a melhor atleta do circuito. Neste ano, ela faz dupla com Talita.​

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