Time de Israel cuja torcida prega 'morte aos árabes' é comprado por xeque

Membro da realeza dos Emirados Árabes se junta a executivo israelense no Beitar Jerusalém

David M. Halbfinger Adam Rasgon
Jerusalém | The New York Times

Um importante time de futebol israelense cuja torcida é notoriamente racista e odeia os árabes vendeu uma participação de 50% no clube a um membro de uma das famílias reais dos Emirados Árabes Unidos.

A transação que derruba barreiras está entre os primeiros frutos da normalização no relacionamento entre Israel e os Emirados, assinada três meses atrás, e tem grande importância simbólica, ao colocar um xeque muçulmano no comando do Beitar Jerusalem, o único time de Israel que jamais colocou em campo um jogador árabe, e cujos torcedores, em sua maioria extremistas, costumam entoar gritos de guerra violentos como “morte aos árabes”.

Os novos sócios no controle, o xeque Hamad bin Khalifa Al Nahyan, 50, e Moshe Hogeg, 39, um executivo israelense de criptomoedas que adquiriu o clube em 2018, declararam em entrevista por telefone na noite de segunda-feira que a união entre eles havia sido motivada em boa medida pelo objetivo de combater exatamente esse tipo de ódio.

“Nossa mensagem é a de que todos somos iguais”, disse Hogeg. “Queremos mostrar aos jovens que somos todos iguais e que podemos trabalhar e fazer belas coisas juntos. Essa mensagem é mais poderosa que o futebol."

O xeque Hamad, que é primo em primeiro grau do governante efetivo dos Emirados, o príncipe herdeiro Mohammed bin Zayed, indicou que o Beitar em breve teria um jogador árabe no time.

“As portas estão abertas para todos, para qualquer jogador talentoso, não importa de onde ele venha ou qual seja a sua religião”, disse o novo proprietário. “As decisões devem ser tomadas por mérito."

Ele disse que se opunha a construir muros entre as pessoas. “Devemos ensiná-las que estamos dando um passo positivo em direção da paz e da harmonia."

Diversos jogadores árabes importantes já expressaram disposição de romper as barreiras no Beitar, disse Uri Levy, um colunista de futebol que opera o site futebolístico BabaGol. Um meio-campista árabe da seleção nacional israelense, Diaa Sabia, foi contratado em setembro pelo Al-Nasr, um clube de Dubai.

Os progressistas israelenses, que encaram com ceticismo a normalização no relacionamento com os Emirados, ainda assim encontraram motivos para celebrar a nova aliança e a mudança conspícua de postura que ela sinaliza.

“A venda do Beitar aos árabes é um claro sinal de que Deus existe”, escreveu Noa Landau, correspondente diplomático do jornal Haaretz, no Twitter.

No entanto, muitos comentaristas árabes expressaram opiniões negativas.

O xeque Hamad Bin Khalifa Al Nahyan e o proprietário do Beitar Jerusalem FC, Moshe Hovav, posam com a camisa do clube amarelo e preto
O xeque Hamad Bin Khalifa Al Nahyan (à dir) e o proprietário do Beitar Jerusalem FC, Moshe Hovav, posam com a camisa do clube - Beitar Jerusalem - 7.dez.20/Reuters

Saied Hasnen, um apresentador de rádio esportiva, classificou a transação como “vergonhosa”. Ele disse que se opunha a qualquer normalização entre os árabes e Israel, e que lamentava particularmente a decisão do xeque de fazer negócio com o Beitar, definindo o clube e seus torcedores como “um lodaçal pecaminoso e sujo de racistas que odeiam os árabes –as piores pessoas da sociedade”.

Khalid Dokhi, diretor geral do Bnei Sakhnin, o clube árabe mais bem sucedido do futebol israelense, expressou sentimentos contraditórios. “Se isso levar a uma mudança na cultura racista, seria benéfico”, disse Dokhi, cujo time joga em uma cidade árabe. “Se não, terá sido um desperdício de dinheiro."

O investimento do xeque Hamad parece ser um gigantesco salto à frente em uma batalha longa e ocasionalmente tempestuosa por diversos proprietários do clube para domar a base de torcedores ultradireitistas do Beitar Jerusalem.

Enquanto outros clubes escalam jogadores judeus e árabes juntos, e embora estes joguem juntos regularmente na seleção de Israel, a torcida organizada ultradireitista do Beitar, La Familia, manifesta-se contra isso, às vezes com violência. O clube vem recebendo multas regularmente e foi proibido de jogar em diversos estádios pelo comportamento violento e gritos de guerra racistas de seus torcedores.

Um muçulmano nigeriano que começou a jogar pelo clube em 2004 era alvo de assédio constante pelos torcedores e pediu para sair menos de um ano depois. Em 2005, La Familia protestou quando surgiram reportagens de que o Beitar teria contratado Abbas Suan, um israelense de etnia árabe que até então jogava pelo Bnei Sakhnin.

Quando ele marcou um gol vital por Israel em uma partida classificatória para a Copa do Mundo contra a Irlanda, a torcida do Beitar ergueu uma faixa que dizia “Abbas Suan, você não nos representa”.

Outra tentativa foi feita em 2013, quando dois jogadores muçulmanos, no caso da Tchetchênia, foram contratados. Uma vez mais houve oposição violenta, capturada de maneira inesquecível no documentário “Forever Pure”.

Quando um dos tchetchenos, o atacante Zaur Sadayev, marcou seu primeiro gol pelo clube e garantiu um empate por um a um contra o rival Maccabi Netanya, centenas de torcedores do Beitar escolheram deixar o estádio para demonstrar sua repulsa, em lugar de comemorar. Os jogadores tchetchenos aguentaram apenas alguns jogos pelo clube.

Levy, o colunista de futebol, disse que o documentário foi um ponto de inflexão. “O filme abriu os olhos de muitos torcedores do Beitar sobre a necessidade de amadurecer e abandonar essa postura malévola, perversa e antiga que já não tem mais lugar no mundo”, ele disse.

O xeque Hamad afirmou que planeja investir cerca de US$ 92 milhões no clube, nos próximos 10 anos.

Na entrevista, Hogeg disse que o que o havia atraído foi o desafio de mudar a reputação do Beitar. “Achei que seria algo de muito bom a realizar –resolver isso e mostrar o outro lado”, ele disse.

Hogeg afirmou que havia primeiro buscado a aprovação de um rabino israelense ultraortodoxo, antes de levar a transação adiante.

Perguntado sobre como a transação tinha surgido, o xeque Hamad respondeu, simplesmente, que “Deus nos conectou”.

Tradução de Paulo Migliacci

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