Descrição de chapéu Mundial de Clubes 2020

Dinheiro da indústria do cimento embala Tigres no Mundial de Clubes

Conglomerado do setor adquiriu time mexicano nos anos 1990 e o ergueu na última década

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São Paulo

Antes da estreia no Mundial de Clubes da Fifa, o goleiro Nahuel Guzmán e o meio-campista Pizarro, jogadores argentinos do Tigres, rechaçaram a ideia de que o time da cidade de Monterrey represente todo o México no Qatar.

“Estamos representando o nosso povo e uma região, mas não temos a responsabilidade de representar um país. Apenas vamos representar a instituição”, disse Pizarro. Guzmán foi menos polido: "É um Mundial de Clubes, vamos representar apenas o Tigres e não vamos representar ninguém que queira se pendurar nas nossas tetas".

As declarações dos jogadores desencadearam uma polêmica no país, a ponto de os argentinos terem sido orientados pela diretoria do clube a evitar provocações com torcidas rivais.

A Cemex (Cementos Mexicanos), empresa que controla o Tigres e cuja logomarca estampa o espaço mais nobre da camisa amarela e azul, usou sua conta no Twitter para afirmar que o time que derrotou o Palmeiras estava, sim, representando a nação.

A torcida do Tigres é a quinta maior do país, com 10,5 milhões de fãs, segundo levantamento de 2018 da empresa Consulta Mitofsky, atrás de Chivas Guadalajara (27,5 milhões de torcedores), América (26,5 milhões), Pumas (12,3 milhões) e Cruz Azul (11,1 milhões).

O Tigres UANL (Universidad Autónoma de Nuevo León), fundado em 1960, cedeu em 1996 a sua administração e o departamento de futebol para a Synergy Sports, empresa constituída pela Cemex e pela companhia de bebidas Femsa (que depois deixou o negócio), em um contrato válido por 30 anos. Em dezembro de 2020, o acordo foi renovado até 2056.

A Cemex é uma das maiores fabricantes de cimento do mundo, opera em mais de 50 países e fatura aproximadamente US$ 13 bilhões (R$ 70 bilhões) por ano. Sediado em Monterrey, o conglomerado fez da agremiação local, que havia sido rebaixada à segunda divisão na edição de 1995/1996, a primeira mexicana a avançar à final do Mundial de Clubes. Disputará a taça nesta quinta (11), às 15h, contra o Bayern de Munique.

A guinada do Tigres teve inicio na última década, sob o comando do técnico carioca naturalizado mexicano Ricardo Ferretti, que assumiu o cargo em 2011, e capitaneada em campo pelo atacante francês André-Pierre Gignac, contratado em 2015.

Desde a chegada de Ferretti, são quatro taças do torneio Apertura (2011, 2015, 2016 e 2017) e uma do Clausura (2019), além da conquista inédita da Concacaf Champions, em 2020. Antes, os torcedores auriazuis se orgulhavam apenas dos longínquos títulos nacionais de 1977/1978 e 1981/1982.

Rafael Carioca está no Tigres desde 2017 - Karim JaafarAFP

A escolha de Gignac, então vice-artilheiro do Campeonato Francês, de não renovar com o Olympique de Marselha e se transferir para o México pegou muitos de surpresa. Segundo Alejandro Rodríguez, presidente do clube na ocasião, o negócio só foi consumado após oito meses entre convencer o atleta a deixar os grandes centros e acertarem as bases contratuais.

A diretoria adota o princípio de que, para brigar por títulos, o principal investimento deve ser feito na manutenção do elenco. Entre os titulares que eliminaram o Palmeiras na semifinal, Gignac e Guzmán, no clube desde 2014, são os mais longevos.

“O Tigres não tem a intenção de vender jogadores, porque o pensamento é a longo prazo. Por isso, uma proposta tem que ser muito interessante para nos liberarem”, afirmou o volante Rafael Carioca à Folha.

Depois de vestir as camisas de Atlético-MG, Grêmio e Vasco, o brasileiro de 31 anos chegou ao Tigres em 2017. Em junho do ano passado, assinou vínculo por mais três anos.

“O México não deve nada ao Brasil. Temos uma estrutura maravilhosa, pagam salários em dia e fazem grandes planejamentos para as competições”, diz Rafael Carioca. “Nosso time tem uma base, incluindo diretoria, comissão técnica, jogadores, de quase uma década.”

O modelo de clube-empresa, cuja discussão no Brasil se encontra engavetada no Congresso, tem sido um dos responsáveis pelo desenvolvimento do futebol mexicano, diz o advogado Luciano Motta, que lançou o livro "O mito do clube-empresa" (Sporto) em 2020.

Entre os principais times há investidores de diversos segmentos da economia, inclusive conglomerados de mídia. Caso da Televisa, proprietária do América, o maior campeão nacional, com 13 títulos.

“No México, a popularização do futebol começou a se consolidar tardiamente, a partir da Copa de 1970, e o modelo de associação é menos arraigado em comparação com o Brasil. Grandes empresas não só investem na equipe como buscam protagonismo na gestão do clube”, afirma Motta. “A legislação mexicana não criou nenhuma forma específica [empresarial] para o futebol, que deve recorrer aos modais tradicionais de empresa.”

No país, também não há nenhum impedimento para que um investidor controle dois ou mais clubes simultaneamente. O grupo Orlegi, que afirma atuar na agroindústria, mercado imobiliário e corretagem de seguros, além de esporte e entretenimento, é dono do Santos Laguna e, no ano passado, adquiriu o Atlas, que pertencia à emissora de televisão Azteca.

Para o advogado Eduardo Carlezzo, especializado em direito desportivo, a permissão de multipropriedade de clubes no México pode deixar as competições em que uma mesma empresa controle mais de um participante mais vulneráveis a esquemas de manipulação de resultados.

"A federação mexicana permite que uma empresa controle mais de um clube pertencente à primeira divisão. A Fifa, por sua vez, proíbe que tal fato ocorra quando a integridade de um jogo ou de uma competição possa ser prejudicada. Contudo, até hoje, ainda que legalmente discutíveis, as regras da federação mexicana permanecem em vigência", afirma.

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