Descrição de chapéu The New York Times

LeBron James lidera geração de atletas donos de equipes

Astros percebem que, além do ativismo, é preciso obter posições em conselhos dos times

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Kurt Streeter
The New York Times

Em uma era marcada por protestos de atletas e por paralisações coordenadas dos jogos em múltiplas ligas, duas formas de manifestação que ganharam força em 2020, é fácil colocar fé demasiada na capacidade dos esportistas profissionais para promover mudanças sociais.

O empoderamento real só virá quando um número maior de jogadores superar a barreira tradicional entre os gestores e a mão de obra, ao se tornarem proprietários de times –a posição na qual podem exercer verdadeira influência. É por isso que as mais recentes jogadas de LeBron James fora das quadras, que não receberam a atenção merecida por conta do entusiasmo quanto aos torneios finais do esporte universitário da NCAA, são tão intrigantes.

James, astro do Los Angeles Lakers, anunciou na semana passada que estava adquirindo uma participação, pequena mas significativa, no Fenway Sports Group. Como o nome da empresa indica, isso o torna um dos proprietários do Boston Red Sox e lhe confere uma posição entre os controladores do mundo do beisebol. O investimento também amplia a participação acionária de James no Liverpool, da Premier League, e na equipe Roush Fenway Racing, da Nascar, da qual ele se tornou sócio em 2011.

LeBron James, do Los Angeles Lakers, conduz a bola até a cesta
LeBron James em ação pelos Lakers - Gary A. Vasquez - 20.mar.21/USA Today Sports

É um gostinho do que está por vir. Os atletas atuais estão começando a perceber que a verdadeira força está não só no ativismo de raiz e na busca de títulos, mas em obter posições nos conselhos dos times. Ao fazê-lo, eles poderão influenciar a posição de ligas que continuam a encarar qualquer transformação com pouco entusiasmo.

A NFL teria banido Colin Kaepernick se houvesse um número significativo de ex-jogadores negros entre os proprietários de times? Parece improvável.

O envolvimento dos atletas no controle de times não é um fenômeno inteiramente novo. Mario Lemieux adquiriu o Pittsburgh Penguins, que estava falido, em 1999. Onze anos mais tarde, Michael Jordan se tornou o primeiro jogador da NBA a ser sócio majoritário de um dos times da liga, ao tomar o controle do Charlotte Bobcats –uma de suas primeiras decisões importantes foi mudar o nome do time para Hornets. Isso permitiu que Lemieux e Jordan colhessem retornos financeiros que seu trabalho como atletas não bastaria para lhes propiciar.

Mas o envolvimento cada vez maior de James nos corredores do poder demonstra que os astros atuais do esporte –mais politizados do que Jordan e Lemieux e mais inclinados a buscar espaço entre os ricaços estabelecidos– estão prontos para usar o controle sobre times para objetivos maiores do que o ganho pessoal.

Com um empurrãozinho de James, Renee Montgomery anunciou que estava deixando as quadras, aos 32 anos, para se tornar a primeira jogadora da WNBA a ser sócia do grupo que comanda um dos times da liga, o Atlanta Dream, depois que as jogadoras da equipe se ergueram contra uma das proprietárias do time, Kelly Loeffler, senadora republicana radical que enraiveceu o mundo do basquete ao criticar o movimento Black Lives Matter.

Naomi Osaka e Serena Williams, duas estrelas do tênis sempre dispostas a se pronunciar, se tornaram sócias do grupo que controla um time da National Women’s Soccer League, e o mesmo vale para algumas estrelas do futebol feminino que deixaram os gramados, depois da luta das atletas da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos por igualdade na remuneração.

A tenista japonesa Naomi Osaka com o troféu do Australian Open de 2021
A tenista japonesa Naomi Osaka com o troféu do Australian Open de 2021 - William West - 21.fev.21/AFP

E podemos esperar que esse tipo de coisa continue a acontecer, já que a geração atual de atletas parece profundamente consciente do poder direto que os proprietários de times exercem. Adquirir uma participação no grupo Fenway permite que James descubra como operar, enquanto busca um de seus objetivos mais importantes no esporte. Não estou falando de igualar ou superar a marca de seis títulos da NBA conquistada por Jordan. Estou falando do controle majoritário de um time da NBA. Por enquanto, James terá de esperar. As regras da NBA proíbem que um jogador em atividade seja proprietário de um time.

Quando o momento chegar, ele estará pronto. Aos 36 anos, James é um magnata dos negócios já há muito tempo e conta com o apoio de um quadro de assessores bem preparados e competentes. Se ele necessitar de investidores ricos para formar uma parceria que o acompanhe em uma empreitada, dispõe de contatos mais que suficientes. Não que ele precise de ajuda. James já se tornou bilionário, ou está perto disso.

De todos os astros atuais do esporte, James tem a maior influência. Ele é o mais disposto a se pronunciar e se expor, tanto junto aos dirigentes esportivos quanto em ternos políticos e com relação a causas sociais.

É por isso ele ofereceu conselhos e contatos que ajudaram na proposta bem sucedida de Montgomery para adquirir uma participação no Atlanta Dream. Montgomery, duas vezes campeã da WNBA, ficou de fora da temporada abreviada do basquete feminino profissional americano, no ano passado, para se dedicar ao ativismo. Depois que as jogadoras do time pediram a derrubada de Loeffler de seu assento no Senado, esta foi derrotada no segundo turno da eleição, em janeiro, um resultado que serviu para comprovar o poder de James.

“Fale só de esporte”, escreveu James em um tuite dirigido a Loeffler, depois da venda de sua participação a um grupo que incluía Montgomery. Foi uma maneira de ironizar uma frase que James e outros atletas ouviram muitas vezes ao longo dos anos quando se manifestaram sobre questões políticas.

Os dois astros do esporte sabem que se tornarem proprietários de times lhes oferece uma maneira nova e importante de fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

Uma coisa é se ajoelhar durante a execução pré-jogo do hino dos Estados Unidos, participar de protestos ou mesmo liderar abandonos de quadra e paralisações de torneio. Isso tudo é importante. Serve como forma de esclarecer, atrair atenção para a causa e energizar as paixões. Mas no esporte, não é o suficiente.

Os limites que os atletas encaram ficaram claros durante o movimento de protesto que varreu os Estados Unidos no ano passado. Os donos de times dos principais esportes masculinos dos Estados Unidos falaram muito e doaram milhões de dólares a causas apoiadas pelos jogadores. Mas muitos deles também doaram quantias elevadas de dinheiro à campanha do presidente Donald Trump, que se opunha diretamente ao que os esportistas defendiam. Essa duplicidade demonstrou que os jogadores talvez contem com um megafone, mas que o dinheiro continua a ser a linguagem que fala mais alto.

É improvável que aconteça transformação verdadeira se atletas esclarecidos não continuarem a atravessar a fronteira, ingressando nas fileiras dos proprietários e adquirindo influência sobre todos os assuntos, da seleção de treinadores aos esforços dos esportes por um policiamento mais equitativo. Vai demorar para que o número deles seja suficiente para fazer diferença. Mas felizmente, proprietários ativistas como LeBron James e Renee Montgomery agora estão ajudando a desenhar um novo mapa.

Tradução de Paulo Migliacci

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