Descrição de chapéu Tóquio 2020

Desempregado e lesionado em 2018, decatleta agora mira alto na Olimpíada

Antes de obter vaga em Tóquio, ano passado, Felipe dos Santos fazia bicos como motorista

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São Paulo

A natureza desconfiada de Felipe dos Santos, 26, fez com que ele não ficasse eufórico com a classificação para a Olimpíada de Tóquio obtida no Troféu Brasil, em dezembro.

Seus colegas demonstraram muito mais empolgação. Ele ficou feliz, claro, mas não festejou demais porque tinha a certeza que aconteceria, após ter saído de casa convicto de que obteria a marca necessária.

Ir ao Japão e competir na prova mais exigente do atletismo, o decatlo, é como o fechamento de um ciclo para o brasileiro. Um sonho que, em 2018, parecia distante.

Foi o ano em que Felipe sofreu rompimento total do tendão de Aquiles do pé direito. A equipe pela qual competia, a B3, fechou. Num espaço de poucas semanas, ele teve uma lesão séria e ficou desempregado. Todo o tratamento médico foi obtido graças à intermediação do seu técnico, Edemar Santos.

“A gente ficou sem salário, sem apoio, sem fisioterapia, sem nada. Perdemos tudo de uma vez só. Foi a época mais difícil da minha carreira. Pensei em parar. Minha esposa me convenceu a não desistir”, afirma ele.

O decatleta passou seis meses sem colocar o pé no chão. Era sua segunda contusão séria. Em 2016, havia ficado quase uma temporada inteira afastada da prova por causa de uma fratura no punho direito.

Parecia demais. Ao lado da mulher, Tania Ferreira da Silva, especialista em salto em distância e salto triplo, ele traçou o plano de fuga. Deixaria as pistas, e o casal se mudaria para a cidade natal dela, Recife. “Ela é professora de educação física e procuraria emprego nisso. Eu iria me virar. Trabalharia com alguma outra coisa."

O casal continuou em São Paulo, mas o “se virar” seguiu válido. Felipe voltou às pistas com uma ajuda de custo de cerca de R$ 600, em uma equipe pequena do ABC paulista. Quando isso aconteceu, já havia começado a trabalhar como motorista de aplicativo. Um mês antes do Troféu Brasil que o classificou para a Olimpíada, ele se mantinha nessa atividade à noite.

“Achei que ele já tinha parado. Foi outro atleta que veio me perguntar se eu sabia que o Felipe continuava fazendo serviço para a Uber. Eu não sabia”, conta Edemar Santos.

A parte financeira sempre foi uma preocupação, porque o decatleta sabe como é a vida de esportista olímpico no Brasil, salvo algumas exceções. Desde que começou a ser profissional, guardou parte dos salários e bolsas com o objetivo de comprar uma casa. O sonho ainda não se realizou, mas a situação hoje é mais tranquila.

Felipe recebe um valor mensal da Confederação Brasileira de Atletismo (CbaT) e espera em breve, segundo Edemar, ter direito à Bolsa Pódio pago pelo governo federal, um ajuda financeira que pode variar entre R$ 5 mil e R$ 15 mil a cada 30 dias.

O casal vive em Bragança Paulista (88 km de São Paulo), onde ele treina no Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo (CNDA), mantido pela CBaT e coordenado por seu técnico. São treinos diários que variam entre 5 e 7 horas. Esforço pesado para quem começou a praticar a modalidade apenas para colocar no mapa sua escola na Cohab Juscelino, zona leste de São Paulo.

“Eu só conhecia corrida de rua. Queria ser jogador de futebol, como os outros moleques da escola. Comecei a fazer diferentes provas entre os 10 e 13 anos e ganhava todas. A escola começou a ser reconhecida. Meu professor me levou para uma peneira no Centro Olímpico e passei”, relembra.

Poderia ser o início de uma carreira em provas como 800 e 1.500 metros. O Centro Olímpico não oferecia para a idade dele as chamadas “provas combinadas”, como o decatlo para os homens e o heptatlo para as mulheres.

No decatlo, os atletas competem no decorrer de dois dias nos 100, 400 e 1.500 metros, salto em distância, arremesso de peso, salto em altura, 110 metros com barreiras, lançamento de disco, lançamento de dardo e salto com vara.

A transição aconteceu por causa de Edemar, quando viu o então garoto de 16 anos em um treino da equipe do Centro Olímpico em São Caetano do Sul.

“Perguntei qual era a prova daquele menino, me disseram 'meio-fundo'. Respondi: 'negativo!' Pelo tamanho e porte físico, ele tinha de fazer provas combinadas”, relata o treinador. Foi o que aconteceu pouco depois.

O Brasil jamais obteve uma medalha olímpica no decatlo. O técnico acredita que seu pupilo possa quebrar essa escrita. Felipe dos Santos terminou 2020 com a quarta posição no ranking mundial. Era uma informação que poderia gerar ansiedade em um atleta estreante nos Jogos. Não é o caso de Felipe, que ainda tem na cabeça os meses pós-cirurgia no tendão, quando se olhava no espelho e via uma pessoa inchada pelos medicamentos. Não parecia um decatleta.

Ele afirma manter o foco no que tem de fazer nos treinos. Não há tempo para ficar ansioso com a viagem para o Japão e as dúvidas sobre a realização dos Jogos na pandemia. Por causa das lesões, cirurgias e problemas físicos, não conseguiu se classificar para a Rio-2016 e o Pan-Americano de Lima, em 2019. Agora não quer ser atrapalhado por nervosismo antes da hora.

“Creio que quando chegar lá em Tóquio pode dar um frio na barriga. Mas logo passa. Minha missão não acabou. Todos pararam por causa da pandemia, e os atletas estão praticamente no mesmo nível. Eu tenho condições de bater de frente com o mundo”, encerra.

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