Descrição de chapéu Futebol Carioca

Mario Filho resiste e se levanta como símbolo acima de polarizações no Maracanã

Ideia frustrada de rebatizar estádio reaviva memória de jornalista, figura central do esporte brasileiro

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São Paulo

​Quando se propôs a escrever a aclamada biografia de Nelson Rodrigues (1912-1980), Ruy Castro nela incluiu o que considera uma “sub-biografia”. Salta das páginas de “O Anjo Pornográfico” (1992) outra figura com brilho próprio, “o Homero do futebol brasileiro”.

Mario Filho (1908-1966) não pôde ser simples coadjuvante nem mesmo no livro criado com o propósito de reconstruir a trajetória de seu irmão –cujas vida e obra não são carentes de fortes emoções. Coube a ele lugar de destaque, como sempre foi sua vocação.

“Tudo o que Mario fazia se traduzia em gigantismo”, descreve Castro, e essa afeição ao grandioso tomou sua forma mais palpável no Maracanã. Decisivo para a construção do colossal estádio carioca inaugurado em 1950, o jornalista passou a batizá-lo logo depois de morrer.

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Mario Filho e Pelé têm grande importância na história do Maracanã - Divulgação

Transcorrido pouco mais de meio século, porém, pareciam memórias gastas, distantes, as contribuições do pernambucano ao esporte. O que restava delas não impediu que os deputados estaduais do Rio de Janeiro aprovassem, no mês passado, um novo nome para o campo: “Edson Arantes do Nascimento – Rei Pelé”.

Faltava apenas a sanção do governador Cláudio Castro (PSC) ao projeto de André Ceciliano (PT), assinado também por Bebeto (Podemos), Marcio Pacheco (PSC), Eurico Junior (PV), Coronel Salema (PSD) e Alexandre Knoploch (PSL). Mas houve uma quase unânime reação contrária ao plano da assembleia legislativa fluminense.

Torcedores de diversos times cariocas se manifestaram, repudiando a possibilidade de rebatismo. Professores de história, jornalistas e intelectuais usaram as tribunas de que dispõem para demonstrar perplexidade. O poder multiplicador das redes sociais ampliou o barulho. E Ceciliano, envergonhado, pediu ao governador a devolução do projeto.

“Foi surpreendente e muito positivo. As torcidas se uniram. Torcedores rivais, de Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, América, que há tempo vivem situações de violência, acabaram se juntando em torno do nome do Mario Filho”, afirma Renato Coutinho, professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense.

Faixa colocada no Maracanã por torcedores do Flamengo pede a manutenção do nome Mario Filho no estádio
Torcedores do Flamengo se manifestaram contra a mudança do nome do estádio Mario Filho; jornalista era rubro-negro, mas uniu diversas torcidas no protesto - Divulgação

A mobilização geral, na visão do historiador, foi bastante simbólica. Em uma sociedade dividida —que levou para o campo político a expressão Fla-Flu, tomando-a do clássico que Mario praticamente inventou–, construiu-se raro momento de consenso.

“Com tanta dificuldade que o país encontra na polarização política, o Mario se levanta como um símbolo de todos os setores, de todos os polos políticos. A sociedade civil se ergueu, com pessoas de direita e de esquerda, defendendo o Mario Filho”, diz Coutinho.

Já havia sido assim em 1966, no momento da morte do jornalista, vítima de um infarto fulminante aos 58 anos. Mesmo no contexto de tensão da ditadura militar instalada no Brasil em 1964, a moção para que o estádio municipal do Rio passasse a se chamar Mario Filho foi abraçada pela governista Arena e pelo opositor MDB, com aprovação unânime na assembleia legislativa da Guanabara.

Foi algo apropriado para homenagear alguém que tinha uma capacidade excepcional de aglutinar pessoas diferentes. A visão que ele sustentou em seu Jornal dos Sports para a construção do Maracanã cobrava um palco que pudesse abrigar uma “multidão composta por homens, mulheres, operários e grã-finos”.

Era uma ideia, a bem da verdade, anterior às discussões sobre o estádio que viria a ser erguido para a Copa do Mundo de 1950. Partidário da profissionalização do futebol, Mario defendia fazia tempo a instalação de praças capazes de abrigar o crescimento do jogo também pelo lado de fora, tarefa na qual exerceu papel fundamental.

O pernambucano começou, ainda na década de 1920, a revolucionar a cobertura futebolística nos jornais, aproximando o leitor da vida dos jogadores, com perfis e histórias de bastidores. Nessa espécie de fundação da crônica esportiva moderna, simplificou o nome dos clubes e abortou termos importados do inglês que ainda eram recorrentes no “foot-ball”.

O jornalista, na sequência, procurou colocar o torcedor em primeiro plano. Em uma época na qual a interação do público com os atletas era limitada e o barulho chegava a ser malvisto, Mario retratou a arquibancada como parte fundamental do jogo e incentivou a participação da plateia à beira do campo, que já não era mais “field”.

“Como um bom discípulo do Gilberto Freyre, ele entende o futebol como um espaço de inclusão, de miscigenação, de integração nacional. Acima de tudo, ele entende o torcedor com papel de protagonismo no espetáculo”, diz Coutinho, que dedicou estudos ao momento-chave de popularização do esporte entre os anos 1930 e 1950.

Estava em curso, nesse período, uma redefinição dos símbolos da cultura popular brasileira, algo elevado a política de Estado com Getúlio Vargas. E a máquina de escrever de Mario Filho –que era próximo do presidente– contribuiu decisivamente para incluir o futebol na identidade nacional que se forjava.

Dos textos do cronista brotavam feitos monumentais, do passado e do presente. Recordando um Fla-Flu de 1919 ou relatando o decisivo de 1937, o pernambucano exercia sua vocação homérica pintando os jornais com tintas épicas. Não era diferente nos livros, como “Histórias do Flamengo” (1945) e aquela que é sua grande obra, “O Negro no Futebol Brasileiro” (1947).

Mario Filho acompanha jogo ao lado do escritor José Lins do Rego; com a ajuda de Ary Barroso, eles construíram a imagem do antes elitista Flamengo como força popular - Divulgação

Mais do que relatar as notícias, ele se empenhou em produzi-las. Com a visão de que precisava alimentar as multidões que ajudava a criar, passou a organizar eventos que preenchessem os vazios do calendário. Surgiram assim grandiosos jogos estudantis, uma prova automobilística na Gávea e torneios de futebol como o Rio-São Paulo e a Copa Rio.

“Mario Filho tornara-se muito mais do que o maior cronista esportivo do Brasil. Era o seu historiador, sociólogo, inventor de eventos, aglutinador de multidões. Quando se tratava de futebol, ele só não fazia chover nos gramados. Ao contrário, fazia raiar um sol que iluminava tanto os clássicos quanto as peladas –as quais transformava em clássicos, com a sua forma inimitável de escrever”, relata Ruy Castro, em “O Anjo Pornográfico”.

Essa forma de escrever, presente em crônicas como “O Sapo de Arubinha”, fazia consideráveis concessões à imaginação. Ficou para a história, por exemplo, o tapa dado pelo uruguaio Odbulio Varela no brasileiro Bigode na partida que decidiu o Mundial de 1950. A agressão “ardeu no rosto da multidão”, narrou Mario, uma bofetada que, entre 200 mil no Maracanã, só ele parece ter visto.

“Mario Filho foi o Homero do futebol brasileiro. Não foi o Gibbon ou o Toynbee, não foi um historiador. Se escrevesse sobre o jogo de ontem no Maracanã, dava-lhe um ar de heroico e épico, como se ele tivesse acontecido há 2.000 anos num estádio da Grécia. No que fez muito bem, porque o futebol precisa e vive desse clima de ficção e paixão irracional. No futebol, acreditamos no que queremos acreditar”, diz Castro à Folha.

Em 2021, os torcedores escolheram acreditar na visão de Mario Filho para o Maracanã, ainda que o estádio seja hoje bem diferente daquele que abrigava “operários e grã-finos”. Reconstruído para a Copa de 2014, o palco adotou a lógica excludente das arenas modernas, que transformou o torcedor em cliente e afastou o pobre do jogo.

Nesse sentido, talvez até fosse coerente que o campo deixasse de carregar um nome cujos valores foram suprimidos. Mas foi justamente na reafirmação desses valores que ressurgiu Mario Filho —que andava esquecido e foi trazido à tona, de maneira torta, por um projeto de lei esmagado pela força popular.

“Quando as pessoas brigam pela preservação do nome do estádio, fica claro que existe, sim, uma adesão à memória popular da cidade”, observa Renato Coutinho, empolgado com a evocação de Fla-Flus nos quais esquerda e direita significavam apenas os lados do campo.

“O Mario Filho permanece como um símbolo da integração nacional, de consenso. Está vivo. Quando as pessoas, das mais simples àquelas com uma capacidade maior de teorização, todas associam o Mario Filho a um Maracanã inclusivo, você vê aí a importância da memória dele na sociedade brasileira”, conclui o historiador.

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