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Abandono de Osaka em Roland Garros marca capítulo triste do tênis

Desfecho indesejado por todos deixa questões sobre saúde mental e relacionamento com a imprensa

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Christopher Clarey
Paris | The New York Times

O abandono de Roland Garros por Naomi Osaka não era um desfecho que qualquer pessoa no tênis desejasse, e ainda assim foi o que aconteceu.

É provável que a decisão pudesse ter sido evitada se houvesse comunicação melhor e decisões mais inteligentes, mas na noite de segunda-feira (31) a mais proeminente das estrelas jovens do esporte sentiu não ter opção melhor do que abandonar o segundo torneio de Grand Slam do ano.

A partida de segunda rodada entre ela e Ana Bogdan será uma vitória por WO para a romena, em lugar de uma nova chance para que Osaka, 23, que ocupa o segundo lugar do ranking feminino, consiga progresso nas quadras de saibro, que sempre foram problema para ela.

Naomi Osaka após vencer na estreia de Roland Garros
Naomi Osaka após vencer na estreia de Roland Garros - Martin Bureau - 30.mai.21/AFP

“Acima de tudo, é realmente triste: para ela, para o torneio e para o esporte”, disse Martina Navratilova, ex-tenista que já foi a número um do ranking e testemunhou muitas confusões em seus 50 anos no esporte. “Ela tentou contornar ou amenizar algo que era um problema para ela, e em lugar disso o tornou muito maior do que era inicialmente."

A esta altura, não seria sábio especular sobre o escopo geral dos problemas de Osaka. Nem mesmo ela os compreende bem e disse em seu comunicado de abandono do torneio, nas redes sociais, que tem enfrentado longos surtos de depressão desde o US Open de 2018, que ela venceu ao derrotar Serena Williams em uma final tumultuada.

O que fica claro é que o catalisador em Paris, se bem que apenas o catalisador, foi um dos traços característicos do esporte profissional: a entrevista coletiva.

Osaka, mencionando sua saúde mental, anunciou antes do torneio que “não teria contato com a imprensa” durante Roland Garros. Entrevistas coletivas são obrigatórias para os jogadores que forem solicitados nos torneios de Grand Slam, e Osaka foi a primeira estrela do tênis a deixar claro que pretendia violar a regra durante toda sua passagem pelo torneio.

O anúncio dela nas redes sociais apanhou os organizadores de Roland Garros e os dirigentes do tênis de surpresa. Foi o primeiro erro de julgamento da atleta. O seguinte foi não estar acessível quando os dirigentes do tênis, justificadamente, solicitaram informações adicionais.

Gilles Moretton, o novo presidente da Federação de Tênis da França, e outros tentaram repetidamente falar com ela, sem sucesso.

Quando Osaka de fato faltou à entrevista coletiva depois de sua vitória na primeira rodada sobre Patricia Maria Tig, no domingo, Roland Garros a multou em US$ 15 mil e os dirigentes dos torneios de Grand Slam deixaram claro que ela corria o risco de ser excluída de futuros torneios se continuasse a se recusar a cumprir seus deveres de mídia.

Foi uma decisão severa: severa demais à luz do que Osaka explicou na noite de segunda-feira. Depressão é mais comum no esporte do que muita gente imaginaria. O problema foi que Osaka não ofereceu uma explicação aos dirigentes do tênis –em público e nem, aparentemente, em particular– até a noite da segunda-feira.

Considerando a importância de Osaka e a conscientização e sensibilidade maiores quanto à saúde mental dos atletas que existe agora, é difícil imaginar que Moretton ou outros dirigentes de torneios de Grand Slam não teriam tentado trabalhar com ela em busca de uma solução mais conciliatória, se tivessem um quadro mais claro sobre o problema.

Em lugar disso, eles foram deixados sem informações por tempo demais. Osaka se concentrou, antes do torneio, em suas queixas sobre a necessidade de reforma do modelo de contato entre atletas e a mídia em seu esporte, mencionando perguntas extremamente repetitivas e linhas de interrogatório que a levavam a duvidar de si mesma. Talvez existam maneiras melhores para que jornalistas profissionais se informem sobre os jogadores de tênis e suas partidas.

Os campeões e os aspirantes a títulos de tênis lidam com esses desafios nas salas de entrevista há décadas, e se Osaka é sensível com relação ao seu jogo saibro no saibro, imagine como Pete Sampras se sentia quando era perguntado sobre suas falhas, em mais de uma década de tentativas fracassadas de vencer em Roland Garros.

E no entanto ele continuou a comparecer às entrevistas coletivas e a buscar um título, da mesma forma que Jana Novotna em Wimbledon, antes de enfim conquistar o título de simples em 1998.

Como Billie Jean King gosta de dizer, a pressão é um privilégio, e perguntas repetitivas são uma inconveniência mas também um reflexo do interesse do público. Cobertura de imprensa, boa parte dela favorável, ajudou Osaka a se tornar a mulher mais bem paga no esporte do planeta. Ela faturou mais de US$ 55 milhões em 2020, principalmente em contratos de patrocínio.

Encarar perguntas desagradáveis, mesmo depois de uma derrota, não parece ser pedir demais. Responder “sem comentário” ou adotar uma forma mais polida de recusa continuam a ser opções legítimas. Mas uma das lições aprendidas com o caso Osaka pode ser a de que alguns atletas realmente têm dificuldade para suportar tudo isso. A questão passa a ser, portanto: esses jogadores teriam direito a tratamento especial, e em que medida?

Um dos motivos da linha dura adotada pelos dirigentes dos torneios de Grand Slam com relação a Osaka foi o desejo de tratar os jogadores igualmente.

“Creio que Naomi sempre teve dificuldades para falar em público, e lidar com a imprensa sempre lhe causou ansiedade, e isso enfim chegou a um ponto de crise”, disse Rennae Stubbs, que foi número um no ranking de duplas e agora é treinadora e comentarista da ESPN.

“Não se pode permitir que um jogador tenha vantagem desleal ao evitar o contato pós-jogo com a imprensa. Isso requer tempo, e se um jogador não for obrigado a fazê-lo e outros sim, o tratamento seria desigual. Mas, depois do que aconteceu, é hora de contemplar a situação com seriedade."

Serena Williams tratou a questão com simpatia, depois de sua vitória de primeira rodada, segunda-feira em Paris. “Lamento por Naomi”, ela disse. “Minha vontade seria de lhe dar um abraço, porque sei o que ela está sentindo. Estive na mesma situação. Temos personalidades diferentes, e as pessoas são diferentes."

“Eu sou grossa”, disse Williams, aparentemente em referência à espessura de sua pele. “Outras pessoas não são. Todos são diferentes, e cada um lida com as coisas de um jeito diferente. É preciso deixar que ela lide com com a situação da maneira que deseja, da maneira que ela acha ser melhor."

É um sentimento bonito, mas também é importante aprender, quando as coisas saem errado. Parece claro que se essa situação infeliz tivesse sido conduzida de maneira diferente desde o começo, Osaka não teria sentido que se tornou causa de alarde e estaria se preparando para seu jogo de segunda rodada em Paris, e não fazendo as malas, insegura sobre onde jogará a seguir, já que Wimbledon deve começar em menos de um mês.

Mas as questões subjacentes que Osaka enfrenta provavelmente permanecem.

"O resumo é que esse problema envolve mais do que falar com a imprensa”, disse Navratilova. “É algo que vai bem mais fundo, e não temos maneira de saber, e tampouco devemos especular, sobre a profundidade da questão”.

Tradução de Paulo Migliacci

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