Com pássaros e abelhas, música de Moreira diverte também as crianças

Cantor baiano gravou canções como 'Acabou Chorare', 'Lenda do Pégaso' e 'A Bola'

São Paulo

Moraes Moreira, morto devido a um infarto agudo do miocárdio nesta segunda (13), aos 72 anos, no Rio de Janeiro, deixou um legado também para crianças, além de seus sucessos de Carnaval.

Aliás, foi ainda criança que o cantor, compositor e instrumentista baiano, nascido na cidade de Ituaçu, teve as suas primeiras experiências musicais. Entre elas, a de tocar sanfona de 12 baixos em festas de São João.

Quando adolescente, aprendeu a tocar violão, enquanto fazia curso de ciências em Caculé, na Bahia, antes de se mudar para Salvador, em 1966. Foi nesse momento que Moreira conheceu Tom Zé, que o colocou em contato com o rock, o que o estimulou a aprender a tocar guitarra.

O cantor Moraes Moreira recebe homenagem de uma criança em show no Rio de Janeiro em 1996  - Alexandre Brum/Enquadrar/Folhapress

Embora sua paixão maior tenha sido compor músicas para o Carnaval, a versatilidade era o forte de Moreira, que nunca se ateve a um só gênero musical.

Durante sua carreira, passeou com destreza por samba, frevo, forró, axé, marcha, choro e baião, entre outros, sem esquecer o gênero infantil.

Acabou Chorare”, faixa título do álbum homônimo de 1972 dos Novos Baianos, grupo que ele criou com Paulinho Boca de Cantor, Luís Galvão, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, em 1969, é uma das composições de Moreira que agradam aos pequenos.

O título da canção surgiu de conversa, por telefone, entre Luis Galvão, dos Novos Baianos, e João Gilberto.

O mestre da bossa nova contou que sua filha, Bebel Gilberto, ao cair e se machucar sempre dizia: “Acabou chorare”. Como moravam no México, a menina misturava o português e o espanhol.

A canção que deu origem ao título do disco —influenciado por João Gilberto— foi escrita por Luiz Galvão, musicada por Moraes Moreira. Pega fácil na mente das crianças.

Em 1975, Moreira saiu do grupo para se lançar em carreira solo. Foi em 1980, no LP “Bazar Brasileiro”, que o compositor registrou em parceria com Jorge Mautner “Lenda do Pégaso”, fazendo da fábula mitológica uma canção.

Nela, um passarinho feio vivia a sonhar em ser o que não era, querendo ser outra ave. Até que Deus chega e diz: “Pegue as mágoas e apague-as, tenha o orgulho das águias”. E completa: “É tudo azul, e o passarinho feio/Virou o cavalo voador, esse tal de Pégaso”.

É outra música de Moreira que pode levar a criançada pelas asas da imaginação.

Moreira também participou de projeto desenvolvido por Vinicius de Moraes em parceria com Toquinho.
O musical “A Arca de Noé” incluía a gravação dos dois LPs. Em um deles, quem interpreta “As Abelhas”, de Vinícius de Moraes e Bacalov, é o cabeludo Moreira, música que encanta adultos e crianças.

Outra participação do dono da vasta cabeleira pode ser ouvida no álbum “Casa de Brinquedos” (1983), de Toquinho, no qual Moreira interpreta “A Bola”, com o qual marca um gol de placa no campo infantil.

Falando em cabelo, o de Moreira traz uma curiosidade. A cantora Maria Rita foi casada com Davi Moraes, filho de Moreira, e com ele teve a filha Alice, hoje com 7 anos. Segundo Maria Rita, quando a filha ainda era bebê, assustava-se com a vasta cabeleira do avô, mas com o passar do tempo o estranhamento passou. No entanto, o que não vai passar será a ausência do músico na música popular brasileira.

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