Descrição de chapéu

Filme sobre Edir Macedo é novelão eficiente que prega para convertidos

Com bom elenco, 'Nada a Perder' mostra que Igreja Universal, após demonstrar seu controle sobre a retórica da TV, invade seara mais próxima do catolicismo: o cinema

Inácio Araujo
São Paulo

'Nada a Perder - Contra Tudo. Por Todos'

  • Classificação 12 anos
  • Elenco Petrônio Gontijo, Dalton Vigh e Beth Goulart
  • Produção Brasil, 2017. 135 min
  • Direção Alexandre Avancini

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Desde o início, a IURD constituiu um projeto de poder formulado desde que adquiriu a TV Record. O veículo principal era o programa “Fala que Eu Te Escuto”, encontro diário de três pastores peso-pesado da igreja: Gonçalves, Ronaldo e Marcelo. Usar a TV como lugar de pregação mostrava, desde então, um profundo sentido da eficácia no uso dos meios de comunicação de massa como recurso de evangelização.

Esse projeto tinha como fundamento mundano o combate ao que era, ou julgava ser, a perseguição da oficialidade religiosa (isto é, o catolicismo). Hoje, mais de 20 anos depois,  sabemos que o quanto esse projeto progrediu. A IURD tem uma representação poderosa no Congresso e o mais inteligente daqueles três pastores dos primeiros dias de Record hoje é prefeito do Rio. Não é pouco.

Essa introdução tão pouco “cinematográfica” é no entanto necessária para que se possa entender o passo a passo dessa batalha, explicitado em “Nada a Perder”. Ele se mostra desde que o jovem Edir pergunta-se sobre a imagem do “Deus morto” (crucificado) que vê na parede de sua casa. Acha que Deus só tem sentido se for vivo.

Sua obsessão pela salvação das almas vem da juventude. Nesse momento enfrentará as primeiras adversidades e decepções nessa área, onde é julgado ora pouco preparado, ora pouco ambicioso. 
Quanto à ambição, em todo caso, o diagnóstico é errado. O jovem Edir quer falar ao povo mais pobre, mais despossuído, mais necessitado. Em vez do “Deus morto”, distante, meramente formal do catolicismo (em especial sob João Paulo 2º.) oporá um Deus mais que presente. Um Deus que chega à alma, invariavelmente, através do corpo: cura asma, tira o demônio do corpo, provê bens materiais. 

Toda essa trajetória é tratada de maneira didática em “Nada a Perder”. Como se trata, porém, de uma biografia (autorizadíssima, claro), tudo isso é atravessado pela figura humana do fundador da igreja, Edir Macedo, descrita como alguém cuja força e carisma (indiscutíveis) derivam simplesmente de sua grande fé. O movimento é duplo: mostrar a “humanidade” de Edir é, ao mesmo tempo, postular que todas as suas virtudes provêm de sua fé e de sua submissão ao poder de Deus.

O poder de Deus é, em suma, o projeto de poder da IURD. Não por acaso, dos embates iniciais com “espíritas” (nome genérico com que a igreja denomina os cultos afro-brasileiros e o confunde com o espiritismo), pastores (e mesmo com seu cunhado , R.R. Soares, de quem o filme parece se deliciar ao entregar o nome: Romildo) passa-se ao enfrentamento frontal com o catolicismo.

Se tudo no filme enfatiza a humildade de Edir, o catolicismo surge como a grande força dominante, com grande poder no Estado: aquela que desloca o filme para Brasília e, mais uma vez, reforçará a imagem de uma igreja perseguida (como a dos primeiros tempos) por estar próxima do povo.

“Nada a Perder” prega aos convertidos numa linguagem que certamente não é a de críticos de cinema (entre outros). Mas o faz com eficiência (filme novelão, dramaticidade às antigas etc.). Com um bom elenco e direção de arte razoável demonstra que a IURD, após demonstrar seu controle sobre a retórica da TV, invade a seara, por tradição, mais próxima do catolicismo: o cinema. Por ora, modestamente. Mas foi a modéstia, postula o filme, que, associada à fé, fez de Edir uma potência.

Vencer o catolicismo em seu próprio campo seria um triunfo a mais no projeto de poder (bem mundano) do neopentecostalismo. Apesar da bancada em Brasília, apesar da prefeitura do Rio, ele ainda tem tudo a ganhar e nada, ou bem pouco, a perder.

 

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