Descrição de chapéu Crítica

Trama paralela a conflito policial torna 'O Mecanismo' uma série política

Encaminhamento evita contrapor pessoas 'de bem' a corruptos

Enrique Diaz e Selton Mello em cena da série 'O Mecanismo'
Enrique Diaz e Selton Mello em cena da série 'O Mecanismo' - Karima Shehata/Divulgação
Cássio Starling Carlos
São Paulo

Duas tramas convivem e se sustentam ao longo dos oito episódios da primeira temporada de “O Mecanismo”, série do Netflix criada por José Padilha com roteiro sólido de Elena Soarez.

A mais óbvia reconstitui as primeiras etapas da Operação Lava Jato, adaptando, como alerta o letreiro inicial, “personagens, situações e outros elementos para efeito dramático”.

Esse fio principal não se distingue muito do modelo de caça a bandidos reduzido à caricatura no filme “Polícia Federal: A Lei É para Todos”. De um lado temos um pequeno grupo de agentes incorruptíveis que tenta apanhar um doleiro sobre o qual pesam todas as suspeitas. A partir desse ponto desvela-se uma enorme rede de corrupção que corrói a nação como um câncer, metáfora repisada a cada episódio.

Para dar personalidade aos lados desse conflito, a série focaliza uma dupla de tipos com trajetórias paralelas. Marco Ruffo (Selton Mello) é um delegado que acredita na justiça, escolheu uma profissão que remunera mal, mas nem por isso cede às tentações.

É ético, apesar de tudo. Sua Nêmesis é o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz), antigo colega que enriqueceu desprezando os limites da lei e, desse modo, tornou-se símbolo do que Ruffo pretende aniquilar.

Ao lado de Ruffo, a série fortalece o time dos personagens-com-quem-se-identificar com a presença intensa de Caroline Abras no papel de Verena Cardoni, uma agente que assume a liderança quando Ruffo é afastado.

Mas a ambição de José Padilha não se resume a fazer um bom produto pegando onda no noticiário. Desde sua estreia com “Ônibus 174” (2002), o diretor nunca se contentou apenas em fazer filmes.

Como ficou claro nos dois “Tropa de Elite”, além do sucesso de bilheteria, Padilha busca provocar respostas sociais, fazer o público reagir à anestesia e aos slogans automáticos.

A enorme atenção concentrada na Lava Jato, nos efeitos das investigações sobre o presente e o futuro imediato do país, não poderia escapar ao oportunismo de Padilha.

Por isso, “O Mecanismo” desenvolve aos poucos, quase insidiosamente, outra trama, que justifica, afinal, o título. Nela, revela-se a Ruffo, porta-voz de Padilha, um sistema que vai muito além do megaesquema de corrupção alardeado nas manchetes.

A corrupção endêmica, integrada à nossa identidade na forma cordial do jeitinho, é o tema principal que a série apenas esboça na primeira temporada.

Ao introduzir essa questão fundamental Padilha alcança uma dimensão, de fato, mais política e menos policialesca, mais cotidiana e menos excepcional.

Mais importante, com ela anula-se a possibilidade de assistirmos a “O Mecanismo” como torcedores de futebol, contrapondo “pessoas de bem” e “corruptos”, e ficamos impedidos de olhar para a bandidagem enriquecida à custa de todos sem nos ver um pouco ou muito representados ali.

Enfiar isso goela abaixo dos assinantes do Netflix não deixa de ser uma audácia.

O MECANISMO

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