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crítica de música

Caixa com 10 DVDs reúne bom apanhado de arranjos autorais na cena do violão

Obra traz recitais de 10 diferentes artistas gravados ao vivo em 2012 na série Movimento Violão

Os irmãos violonistas Sergio e Odair Assad, do Duo Assad - Divulgação
SIDNEY MOLINA

Movimento Violão

  • Preço R$ 150 (caixa com dez DVDs)
  • Autor Vários artistas
  • Gravadora Selo Sesc

Como um instrumento de sonoridade tão delicada pode atrair tanto interesse? A pergunta parece estar no olhar meio sem jeito com que cada violonista encara o público antes de se sentar e começar a tocar.

Recém-lançada pelo selo Sesc, uma caixa com dez DVDs traz recitais de dez diferentes artistas gravados ao vivo em 2012 na série Movimento Violão, dirigida há 15 anos por Paulo Martelli.

Como é praxe na série, artistas de carreira internacional proeminente juntam-se a destaques regionais e jovens talentos: todos têm espaço igual no box.

Martelli —ele mesmo um grande nome do violão brasileiro— leva a sua sofisticação musical a todos os detalhes da produção, alinhando a heterogeneidade das propostas artísticas.

Ele também divide o palco com o autor Marco Pereira nas "Lendas Amazônicas", obra do único DVD com orquestra da caixa e que conta com impecável trabalho do regente Rodrigo Vitta na direção da Orquestra Metropolitana.

Nomes que há muito vivem fora do Brasil, como Carlos Barbosa-Lima e Duo Assad, são importantes itens da coleção. Extrovertidos e alegres, os arranjos de música latino-americana de Barbosa-Lima escondem a alta elaboração, só perceptível ao especialista.

Sergio e Odair Assad começam com Sor (1778-1839) e Rameau (1683-1764), mas atingem o melhor momento em suas célebres versões de temas instrumentais brasileiros.

Música brasileira com fortes ingredientes populares é também o foco de Pedro Martelli (irmão de Paulo) e do Quarteto Abayomi.

Repertórios autorais estão nos recitais de Paulo Porto Alegre —com sua modelar técnica de mão esquerda— e Daniel Wolff , cujo relaxamento na produção sonora (mão direita) é invejável. João Kouyoumdjian também investe em repertório novo escrito para ele.

No box, portanto, o cânone violonístico cede espaço a arranjos e composições autorais. As exceções são o jovem brasileiro João Carlos Victor e os argentinos Pablo Márquez e Eduardo Isaac.

Victor encara com categoria a "Chaconne" de Bach (1685-1750), e Márquez —em recital estranhamento curto, de apenas 20 minutos— conecta o renascentista Narváez (1478-1528) ao século 20 de Maurice Ohana (1913-92).

Quem quer que tenha preconceito contra o repertório tradicional do violão clássico precisa ver a "Rossiniana n.4" de Mauro Giuliani (1781-1829) interpretada por Eduardo Isaac, motivo suficiente para adquirir a caixa de DVDs.

O violonista argentino imprime profundidade a tudo o que toca, e sua concepção sonora une indissoluvelmente beleza, inteligência e matizes.

Na era dos vídeos curtinhos amadores apreciados em gadgets caros com pouca qualidade de áudio, Movimento Violão e Sesc seguem, orgulhosamente, na contramão.

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