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Com cenas incômodas, filme tem como causa a retomada do parto natural

'O Renascimento do Parto 2' explora violência obstétrica de que mulheres são vítimas

FILME O renascimento do parto 2
Documentário 'O Renascimento do Parto 2', de Eduardo Chauvet - Elis Freitas/Divulgação
Fernanda Mena
São Paulo

O Renascimento do Parto 2

  • Quando Estreia quinta (10)
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2017
  • Direção Eduardo Chauvet

A repercussão gerada pela imagem de Kate Middleton, sorridente e bem disposta, deixando o local onde, poucas horas antes, havia dado à luz seu terceiro filho com o príncipe William é um retrato do tabu em torno do parto no Brasil. O tema inspirou a trilogia “O Renascimento do Parto”, cujo segundo capítulo chega aos cinemas nesta sexta (10), antevéspera do Dia das Mães.

No Reino Unido da duquesa de Cambridge, o parto normal é regra. Aqui, é exceção. O Brasil é um dos campeões em cesáreas no mundo: 55% dos nascimentos aqui são via procedimentos cirúrgicos deste tipo, que envolvem grande aparato médico e tempo de recuperação. Na rede privada de saúde brasileira, este índice bate a casa dos 80%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que questões médicas justifiquem cesáreas em, no máximo, 15% dos partos. O restante seria fruto de medo, inércia, falta de informação ou oportunismo.

Os dados motivaram o primeiro documentário da série, de 2013, produzido via crowdfunding.

"O Renascimento do Parto 2", no entanto, explora algo mais brutal: a chamada violência obstétrica de que são vítimas mulheres que, como Kate, elegeram o parto normal como forma de trazer os filhos ao mundo.

Trata-se de uma série de práticas, que vão do assédio verbal ao abuso físico, realizadas por profissionais da saúde num momento tão delicado como o do nascimento de um bebê. Entre eles, está a episiotomia, um corte realizado no períneo, musculatura pélvica entre a vagina e ânus, para facilitar a saída do bebê ou para acelerar este processo.

No Brasil, segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 54% das mulheres são submetidas ao corte, o que, além das dores, pode comprometer a vida sexual da mulher. Muitas não são sequer avisadas de que estão sendo cortadas.

A OMS avalia que o corte seja necessário em apenas 10% dos partos normais.

O filme, dirigido por Eduardo Chauvet, reúne cenas violentas de partos normais em que, desfocados os rostos da equipe médica e distorcidas suas vozes, ganham destaque as falas agressivas ("Para com isso!", "Não encosta no bebê senão vai contaminar tudo!") ou jocosas (em que o médico insinua dar um ponto a mais na costura do períneo para deixar a vagina mais "apertadinha" para o marido da parturiente).

Impressiona também o uso da chamada manobra de Kristeller, em que a barriga da mulher é pressionada vigorosamente para empurrar o bebê para fora. A técnica é condenada pela OMS.

Mesmo desfocadas, as imagens de manobras e episiotomias são impressionantes, ainda que se justifiquem enquanto comprovação de uma realidade que se pretende evidenciar. O mesmo não se pode dizer das recorrentes imagens de incisões típicas de cesáreas, em que o bisturi desfolha camadas de pele e gordura.

Incômodas, essas cenas são acompanhadas de depoimentos dolorosos de mulheres que carregam o trauma de terem sido vítimas dessa violência.

Essas imagens e depoimentos se contrapõem a uma enxurrada de sequências explícitas e emocionantes de partos normais realizados em ambientes hospitalares ou domésticos, em camas, sofás ou banheiras infláveis. Elas são intercaladas por falas de ativistas, médicos e mulheres que trazem à luz evidências científicas e subjetivas de que os avanços da medicina para salvar vidas em risco foram tomados como regra de segurança no parto.

É um filme-denúncia e um filme-debate com uma causa bem definida: a de um retorno à simplicidade do parto natural, com o mínimo de intervenção possível e com respeito pela vontade e saúde da mulher e do bebê.

Segundo pesquisa Ibope deste ano, 76% dos brasileiros que querem ter filhos gostariam que eles nascessem de parto normal.

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