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The New York Times Cinema

Documentário sobre o New York Times tem muito em comum com dramalhões da Netflix

Programa tem o hábito irritante de chegar apressadamente a uma história interessante e abandoná-la rápido demais

Maggie Haberman dá entrevista a diretora do filme 
Maggie Haberman dá entrevista a diretora do filme  - T.J. Kirkpatrick/Showtime/Divulgação
Maureen Ryan

The Fourth Estate

  • Quando aos domingos, às 15h30 (horário de Brasília)
  • Onde Showtime (EUA)
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Liz Garbus

“The Fourth Estate” é razoavelmente competente, mas também superficial, e mais desatento do que o espectador gostaria. 

Apesar disso, é bom que o filme exista, da mesma forma que é bom que exista o New York Times. Em seus melhores momentos, tanto o documentário quanto a publicação são muito bons —e ocasionalmente fascinantes.

O documentário tem muito em comum com os dramalhões da Netflix, pela tendência ao excesso e desvios de foco, especialmente nos dois primeiros dos quatro episódios (o primeiro tem 87 minutos, os demais, uma hora). 

O programa tem o hábito irritante de chegar apressadamente a uma história interessante, e abandoná-la rápido demais logo em seguida.

Boa parte do documentário, que começa no dia da posse de Donald Trump, parece uma recapitulação morna de um programa que assistimos não muito tempo atrás.

A diretora retrata diligentemente o que é trabalhar em um espaço de alta pressão e sem botão de desligar. Ao fazê-lo, humaniza nomes como os de Maggie Haberman e Michael Schmidt, famosos por conta do Twitter e de reportagens de alto impacto.

É estranho, porém, que o programa mostre tão poucos conflitos. Quando um repórter conta que ele e alguns colegas queridos de vez em quando “tinham vontade de estrangular uns ao outros”, a declaração causa choque.

É difícil tratar em profundidade uma instituição repleta de pessoas que parecem conscientes do escrutínio que seu trabalho atrai, e que não têm interesse em se tornarem tema de uma historia.

Outro fator de distanciamento —uma postura mental defensiva que enquadra qualquer crítica à publicação como motivada por má fé— faz com que “The Fourth Estate” ocasionalmente pareça uma galeria de retratos de diferentes modalidades de comportamento canhestro.

O episódio final realiza em parte o que provavelmente era a missão da série, pelo menos do ponto de vista da chefia do jornal: prestar contas e oferecer transparência, tanto aos defensores quanto aos críticos do New York Times.

Em uma era na qual assédio sexual e outros abusos de poder se tornaram assuntos de alto perfil —em boa medida por conta de reportagens do jornal— não surpreende, claro, que o jornal estivesse na mira de alguém, diz Elisabeth Bumiller, diretora da sucursal em Washington.

Ela se refere a uma reportagem do site Vox sobre Glenn Thrush [acusado de assediar quatro jovens jornalistas], antigo correspondente na Casa Branca, suspenso por dois meses e depois transferido.

A situação foi dolorosa em múltiplos níveis, e gerou desvios de foco. Mas caracterizar as revelações como uma tentativa de ferir a instituição, e não como um esforço difícil mas necessário de revelar a verdade, de maneira até dolorosa para aqueles que participaram da cobertura do caso, é uma reação infeliz.

Mas é surpreendente, e merecedor de elogios, que a direção do jornal tenha permitido que as equipes do filme acompanhassem tão de perto o caso Thrush.

Essa é a narrativa mais substancial de uma série que também acompanha a vida profissional da equipe da sucursal de Washington, as demissões de muitos assessores da Casa Branca, a publicação de reportagens sobre James Comey [diretor do FBI demitido por Trump] e as diversas investigações, batalhas e reações quanto a Trump.

Em determinado momento, Dean Baquet, editor executivo do jornal, diz à sucursal de Washington que Thrush seria transferido, como “punição”. Uma voz masculina não identificada faz uma pergunta franca depois disso: Por que Thrush não foi demitido? Não vou revelar o que acontece em seguida, mas não eram as mulheres que participavam da conversa a fazer a pergunta.

Já que Bumiller mesma se referiria posteriormente ao descontentamento causado pela decisão, é preciso imaginar se as mulheres envolvidas ficaram realmente satisfeitas ou se hesitaram em questioná-la por medo de incomodar os poderosos do jornal.

Presumivelmente existem grupos no Slack e em apps de mensagens que tratam do tema e de outras questões que afetam o jornal, mas Garbus não teve acesso a esses canais. 

Essa é a maior falha de “The Fourth Estate”: coisas demais ficam de fora. Garbus dá pouco tempo de tela ao nível médio da hierarquia do jornal, aos editores que ajudam os chefes a determinar o tom, foco e enquadramento da cobertura noticiosa.

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