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Em cartas, críticos literários traçaram pontes para a América Latina

'Conversa Cortada' reúne 23 anos de correspondência entre Antonio Candido e o uruguaio Ángel Rama

Laís Modelli
São Paulo

"Meu pai foi o mais sociável dos antissociáveis de seu grupo de amigos e conhecidos", conta a escritora Ana Luisa Escorel, filha do professor e crítico literário Antonio Candido (1918-2017).

"Uma das características principais de sua maneira de ser era a capacidade de se relacionar com pessoas situadas nas mais diferentes latitudes do espectro humano, transitando com naturalidade e interesse do intelectual eruditíssimo ao cantador de cururu; do parente querido e inculto à funcionária que atendia com lealdade o serviço doméstico", recorda.

De todos os intelectuais eruditos que Antonio Candido teve como amigo, um foi pouco conhecido do público: o escritor e acadêmico uruguaio Ángel Antonio Rama Facal (1926-1983), um dos principais críticos latino-americanos.

É justamente essa amizade reservada que é retratada em "Conversa Cortada - A Correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama", livro lançado em maio deste ano.

O volume é uma coedição da Edusp e da Ouro sobre Azul, editora de Ana Luisa Escorel.

Por meio da obra, pela primeira vez, o público tem acesso às 87 cartas, até então inéditas em português, trocadas entre Antonio Candido e Ángel Rama por um período que se estendeu de 1960 a 1983.

Em "Conversa Cortada", observa-se a construção de uma amizade afetuosa entre os dois intelectuais, entrecortada por um momento político e social conturbado para os países latinos nas décadas de 1960 e 1970.

O críticos literário Antonio Candido (1918-2017)

Os intelectuais se conheceram em 1960, quando o brasileiro fez uma série de conferências no Uruguai.

Na ocasião, Rama pediu uma entrevista a Candido para o semanário Marcha, publicação periódica sobre cultura e, em especial, literatura.

A amizade, porém, começaria, de fato, com a primeira carta enviada por Rama, pouco tempo depois da volta de Candido a Assis, cidade pacata em que vivia com a família, no interior de São Paulo.

"O livro trata de uma correspondência fraterna, mas, antes de mais nada, mergulhada nos temas da profissão literária", explica o escritor e acadêmico Pablo Rocca, responsável pela organização das cartas reunidas na obra.

"São conversas escritas que pensaram em projetos e que formularam um futuro para a crítica literária latino-americana. Por isso é possível ler esses mais de 20 anos de cartas, no seu conjunto —ou no conjunto que foi possível reunir—, como um relato apaixonado e apaixonante de certa faixa da vida cultural latino-americana do ciclo 1960-1983", comenta o editor.

"Conversa Cortada" não retrata como Candido e Rama foram em seu íntimo, mas apresenta algo, segundo Rocca, que pode ser ainda mais valioso para o leitor: uma amizade que foi capaz de erguer uma ponte entre o Brasil e o resto do continente.

"A grande preocupação de ambos é a luta comum pelo futuro. Uma luta por sair desse espaço deprimente que havia se tornado a América Latina e pensar, no caso de Rama, o grande projeto de uma biblioteca americana e, no exemplo de Candido, o desejo de conhecer devidamente a literatura hispano-americana através desse grande conhecedor moderno que era seu novo amigo", conta Rocca.

Rocca conta que é Rama quem inicia o diálogo, no dia 26 de abril de 1960.

"O tema da primeira carta é o desejo do uruguaio de criar uma rede latino-americana dentro da qual, para ele, o Brasil representava um grande vazio", descreve o editor.

"Se o tom fraterno presente na escrita das cartas se encaminha para uma amizade verdadeira conforme os anos vão passando, não há confissões, contudo", diz Rocca.

"O que existe de mais íntimo ali é uma continua expressão dolorida pelo exílio —no caso do Rama— e a queixa pelos perigos quanto à integridade pessoal —no caso de Candido— por causa da sua oposição à ditadura de 1964 no Brasil", completa.

Em uma das correspondências trocadas na década de 60, Candido conta ao amigo uruguaio sua preocupação com a segurança de um ex-aluno, a quem dera aulas na USP: Fernando Henrique Cardoso, que, assim como apontava as preocupações do ex-professor, teve de se exilar em 1964, no Chile e depois na França.

O crítico uruguaio Ángel Rama (1926-1983) - Folhapress

Rama, por sua vez, começa escrevendo as correspondências em um endereço no Uruguai, mas logo se muda para a Venezuela por causa de perseguições políticas e termina enviando as cartas da França.

A preocupação de ambos com demais acontecimentos políticos da época, como a Revolução dos Cravos em Portugal (1974), e a Guerra das Malvinas (1982), também faz parte do conteúdo das cartas.

Mais do que conversas sobre o momento político, porém, é a motivação literária que marca a correspondência.

O crítico uruguaio, assim como Candido, defendia que era preciso construir uma integração cultural entre os países da parte latina do continente, com especial atenção para o Brasil, que fora colocado em um isolamento histórico, cultural e linguístico em relação à América Latina.

Tendo por objetivo comum construir uma "latinidade", na década de 1970, as conversas trocadas nas cartas assumem um tom mais objetivo e é colocado em prática o plano de integrar a América Latina por meio das palavras.

O projeto mais ambicioso dessa amizade seria impulsionado por Rama, na Venezuela, ao criar a Biblioteca Ayacucho em 1974, uma coleção destinada a publicar obras de autores latino-americanos.

Coube ao amigo Candido articular os intelectuais brasileiros e reunir as obras nacionais para serem publicadas pela coleção.

"Vou mantê-lo informado, pois você é para nós o representante oficioso, já que não oficial do Brasil", escreve o uruguaio a Candido em carta enviada no dia 11 de abril de 1975.

Do Brasil, Candido também articulava planos para inserir o Brasil na cultura do continente. Começa por convidar o amigo uruguaio para dar palestras e seminários na USP, além de não medir esforços para trazer ao Brasil novos livros hispano-americanos traduzidos ao português.

"Além de críticos finos e de mestres extraordinários, os dois foram animadores culturais envolvidos profundamente com seu ofício, capaz de ter criado um legado permanente para a cultura e literatura da América Latina", aponta Rocca.

A ideia de transformar em livro as 87 cartas surgiu do próprio Pablo Rocca, quando entrou em contato com os textos da publicação Marcha e, pesquisando sobre o crítico uruguaio, descobriu a amizade entre os dois intelectuais.

Rocca procurou a editora de Ana Luisa Escorel em 2015 e pediu autorização para publicar as correspondências.

"Então, fomos a Antonio Candido atrás da licença. Ele pensou, hesitou e negou", conta a filha do literato brasileiro.

"Apesar do afeto e do respeito intelectual tanto por Ángel Rama quanto por Pablo Rocca, meu pai dizia não ver nas cartas uma abrangência de assuntos e comentários que justificassem a publicação."

Ao entrar em contato com a tradução das cartas do antigo amigo uruguaio, no entanto, Antonio Candido começou a se interessar pelo livro.

"Voltou atrás, refez seu juízo reconhecendo nas cartas um interesse próprio, ainda que modesto, segundo ele, e não comparável ao interesse contido em correspondências como as trocadas entre personalidades como Mário de Andrade com Manuel Bandeira e Carlos Drummond", lembra Ana Luisa Escorel.

Ao fim de um processo de idas e vindas, o pai acabou por dar seu aval para a publicação das correspondências.

A atitude reservada no que diz respeito à sua vida íntima, fosse em relação aos amigos, fosse às conversas com eles, ajuda a explicar o fato de a amizade que Candido manteve com Rama ter permanecido pouco conhecida.

"Se, por um lado meu pai era aberto em relação às pessoas, havia nele, ao mesmo tempo, grande necessidade de se fechar em um mundo próprio no qual o limite era a porta da casa, onde gostava de se ficar na companhia da mulher, das filhas e, com o passar dos anos, do neto e das netas, aos quais era muito ligado, nos quais achava muita graça e que traziam o frescor da juventude", diz Escorel.

Outro fator que contribuiu para manter a amizade nos limites do papel de carta foi o inesperado. A amizade acabou cortada, como indica o título do livro, pela morte precoce de Rama em 1983, aos 57 anos.

Rama, sua mulher, a crítica de arte Marta Traba, os também escritores Jorge Ibargüengoitia e Manuel Scorza e a pianista Rosa Sabater estavam entre os 181 passageiros mortos quando o avião em que viajavam se acidentou, pouco antes de chegar ao aeroporto de Madri.

A última carta trocada entre os intelectuais foi enviada por Rama no dia 18 de outubro de 1983, cerca de um mês antes do acidente aéreo fatal.

Candido não teve a oportunidade de responder ao amigo. Morto no ano passado, aos 98, ele também não chegou a ver "Conversa Cortada" ser publicado no Brasil, pouco antes de seu centenário, que se comemora no próximo dia 24.

Conversa Cortada: A Correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama. O Esboço de um Projeto Latino-americano (1960-1983)

Pablo Rocca (org.). Tradução: Ernani Ssó, ed. Edusp e Ouro sobre Azul, R$ 48, 232 págs.


Trechos

A essa altura o Fernando Henrique já contou tudo pessoalmente. A situação dele e dos companheiros do Cebrap não está boa. Houve prisões lá, e todos estão sendo interrogados pela polícia de caráter especial [...] Depois que nos deixamos, o mundo piorou muito, e a situação brasileira também. Há como consolo a fabulosa aventura portuguesa [...]. Com o mundo inteiro indo para a direita e a violência, é precário o destino da nossa mãe-pátria, tão pequena e fraca. Mas estamos aqui vibrando.
De Antonio Candido a Ángel Rama
São Paulo, 8 de outubro de 1974

 

Eu tinha razão quando insistia em que devemos formar essa equipe latino-americana, coerente e séria, de estudiosos capazes de trabalhar ao lado de sociólogos e antropólogos, na tarefa de pensar a nossa cultura e a nossa América. Como você é de algum modo o pai de tudo isto, apesar de ter poucos anos mais que eu, é a você que corresponderia pôr em atividade essa equipe e com uma finalidade concreta e imediata: reescrever a História da Literatura Latino-americana, isso que nunca se fez e que nós estamos obrigados a fazer. Tomara que o Senhor nos dê tempo!
De Ángel Rama a Antonio Candido
Caracas, Venezuela, 8 de novembro de 1973

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