Descrição de chapéu Flip

Intérprete se emociona em mesa da Flip e precisa interromper tradução para se recompor

Italiana de Nápoles, Raffaella de Filippis vive no Brasil desde criança

Maurício Meireles
Paraty

O debate entre Igiaba Scego e Fabio Pusterla, nesta quinta (26) na Flip, foi batizado de “Minha Casa”, mas poderia ter recebido como nome um verso de Chico Buarque: “Olha a voz que me resta”.

Enquanto a conversa entre os dois autores avançava, quem ouvia a tradução simultânea percebeu que a voz da intérprete ficou primeiro nasalada, depois passou a tremer e então se apagou. Quem estava perto virou para olhar o que acontecia.

Na penumbra da tenda dos autores, Raffaella de Filippis, 52, ficou emocionada e precisou interromper a tradução simultânea para se recompor.

“Foi a primeira vez que me aconteceu. Todo o assunto tratado foi profundo, porque eu me identifiquei. Um dos temas eram as pessoas que vivem entre duas culturas”, diz ela.

Italiana de Nápoles, ela vive no Brasil desde criança. E a conversa dos dois autores tinha a ver com sua vida: Scego é italiana, mas de origem somali; Pusterla, por sua vez, vem de um país poliglota, a Suíça, e faz traduções do português.

“Me sinto assim, entre duas casas. O Pusterla falou uma coisa linda: pessoas ficam procurando as próprias raízes. Mas a gente não é árvore, por que temos que ter raízes? Eu tenho raízes no Brasil também”, diz.

Filippis não sabe especificar em que momento se emocionou, mas lembra que Scego começou a falar muito rápido e, por isso, precisou interromper a tradução — quando voltou, a voz já saiu embargada.
Fazer tradução simultânea, diz, é como passar por uma incorporação.

“Ficamos sem o controle, porque é o outro quem está conduzindo a fala. É como se eu virasse outra pessoa, ficamos transportados para outro mundo.” 

Um dos momentos mais fortes, lembra-se, foi quando Pusterla leu um poema seu sobre animais enfileirados rumo ao matadouro —e falou a da experiência de cruzar com o olhar dos bichos: “Cada um de nós já viveu a experiência de cruzar com o olhar de um bicho e nisso revelar a presença do outro.”

Em seguida ele contou uma história de Rosa Luxemburgo (1871-1919), já perto do fim da vida, que viu dois soldados maltratando um boi para que avançasse com a charrete. De acordo com a história, com uma lágrima no rosto, o boi teria se virado para olhar o homem que lhe maltratava.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.