Descrição de chapéu Flip

Poeta é aplaudida de pé ao contar que sofreu censura com luta feminista em Portugal

Na Flip, Laura Erber, Júlia de Carvalho Hansen e Maria Teresa Horta participaram da mesa 'Barco com Asas'

A poeta portuguesa Maria Teresa Horta no telão, com Laura Erber e Júlia de Carvalho Hansen - Keiny Andrade/Folhapress
Patrícia Campos Mello
Paraty

As poetas Laura Erber e Júlia de Carvalho Hansen discutiram o ofício da poesia e a relação entre Brasil e Portugal na vida e na literatura na primeira mesa da programação da tarde da Flip, nesta quinta-feira (26).

A celebrada poeta portuguesa Maria Teresa Horta, 81, participou da mesa “Barco com Asas”, por meio de vídeos em que respondia a perguntas das duas poetas. Mas esse diálogo entre a poesia portuguesa e brasileira saiu prejudicado por causa da dificuldade de compreensão das declarações de Maria Teresa.

A maioria das pessoas entendeu pouco do que a autora portuguesa dizia nos vídeos, em parte por causa do carregado sotaque português, em parte por causa da qualidade de áudio. Maria Teresa não viaja de avião, por isso a organização optou pela participação em vídeo.

Mesmo assim, ela foi aplaudida de pé ao contar um episódio de sua luta feminista em Portugal. Em 1972, Maria Teresa escreveu “Novas Cartas Portuguesas”, manifesto feminista contra a ditadura fascista, em conjunto com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. A obra foi alvo de censura, considerada “pornográfica”.

E Maria Teresa chegou a ser agredida.“Isso é para tu aprenderes a não escrever como escreves”, ouviu ao ser agredida. “Enfrentamos a censura, o poder político. Aquilo tudo saiu do nosso corpo e eles não estavam a esperar.”

Segundo ela, chegaram a lhe perguntar se ela não tinha vergonha por ter escrito a obra. “Escrevo porque sou uma mulher livre. Juntas fizemos o primeiro movimento internacional feminista. A solidariedade faz parte do feminismo. Temos direito às mesmas coisas que os homens. Por que os homens não fizeram grandes coisas é que o mundo está nesse caos.”

O mediador, o poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores, indagou sobre a origem do interesse de Julia e Laura por poesia, e a relação das duas com Portugal. Laura é escritora, ensaísta, artista visual e professora do departamento de teoria do teatro da Unirio. 

Ela é mestre e doutora em Letras (língua portuguesa) pela PUC do Rio e teve obras publicadas em Portugal. Na adolescência, “descobriu” a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, e se apaixonou. Depois, na faculdade, estudou poetas como Florbela Espanca. “O português (de Portugal) é uma outra língua que é a sua, mas que você não domina e que abre um universo novo”, disse.

“Eu leio literatura portuguesa com um ouvido brasileiro, é um fascínio, algo ao mesmo tempo diferente e familiar.”Já Júlia, que é também astróloga, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e teve uma primeira experiência traumática com Portugal. Na primeira vez que foi, tinha 7 anos, e só se lembra de ter tido uma dor de ouvido horrível. 

Em 2008, voltou para lá. “Estava escrevendo meu primeiro livro. Ao chegar no Porto, ouvi as pessoas falando e me apaixonei, explodiu a sintaxe. Era a possibilidade de reinventar a minha escrita”. Gostou tanto que voltou para fazer um mestrado na Universidade Nova de Lisboa, casou com um português e viveu em Lisboa quase 6 anos.

“Em Portugal senti também maior receptividade a meus textos —no Brasil todos os meus livros são coeditados por mim ou são editor de autor, em Portugal editoras publicaram.

“Um de seus poetas preferidos é o português Herberto Helder. O primeiro poema dele que eu li me deu vertigem; pensei: eu não entendo, mas é a coisa mais linda que eu já vi na vida, preciso entender isso.” Em outro vídeo, Maria Teresa contou como conheceu Hilda Hilst, homenageada da Flip deste ano, e Clarice Lispector em uma festa.

“Hilda era muito exuberante, catalisadora das atenções, tinha muito mais gente em volta dela”, contou. “Mas eu estava mais interessada nos silêncios da Clarice. Eu gosto muito da Clarice, mas começo a ler e me dá uma raiva. Gosto imenso, mas discuto com ela todo o tempo.”

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