Descrição de chapéu Flip

'Temos a obrigação de acolher', diz repórter sobre venezuelanos no Brasil

Debate na Casa Folha, na Flip, abordou papel do jornalismo na crise dos refugiados

Guilherme Genestreti
Paraty

A descrença no papel do Estado abre espaço para discursos de ódio na política e para o surgimento de muros. O jornalismo, contudo, pode criar empatia para reverter um recrudescimento generalizado da xenofobia.

Esse foi um dos temas discutidos no debate entre Ana Lemos, diretora-geral da ONG Médicos Sem Fronteiras, e a jornalista Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha e autora do recém-lançado “Lua de Mel em Kobane” (Companhia das Letras).

“Não parece que os muros vão desaparecer tão cedo. Existe uma falta de confiança no Estado que dá espaço para esse discurso ‘nós contra eles’”, disse Lemos na conferência, que aconteceu na tarde desta quinta (26) na Casa Folha, na 16ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Ana Lemos, diretora-geral dos Médicos Sem Fronteiras, e a repórter Patrícia Campos Mello (da Folha) falam sobre suas experiência em zona de conflito em mesa da Casa Folha na Flip.
Ana Lemos, diretora-geral dos Médicos Sem Fronteiras, e a repórter Patrícia Campos Mello (da Folha) falam na Flip sobre suas experiências em zonas de conflito - Keiny Andrade/Folhapress

Campos Mello afirmou que há “políticos que faturam com o sentimento xenófobo”. Ela respondeu a uma pergunta que veio de uma das ouvintes, que questionou qual seria a forma adequada de os brasileiros receberem o afluxo de imigrantes vindos da Venezuela.

“Nós, que abrigamos refugiados europeus depois da Segunda Guerra, temos obrigação de acolher os venezuelanos”, disse a jornalista, que foi aplaudida pelo público em casa lotada.

A repórter é também uma das idealizadoras da série de reportagens “Um Mundo de Muros –As Barreiras que nos Dividem”, publicada na Folha e vencedora de prêmios internacionais. Uma delas aborda a situação entre a Hungria e a Sérvia.

“Os refugiados ficam acampados no mato e atravessam a fronteira em grande número porque sabem que muitos serão pegos”, descreveu a jornalista.

A situação ali também era muito complicada para o grupo dos Médicos Sem Fronteiras, segundo Lemos. “O governo húngaro não gostava da gente, vinham dizer que não éramos bem-vindos.”

Repórter com experiência na cobertura de conflitos armados e crises humanitárias, Campos Mello detalhou seu trabalho na Síria pós-guerra civil, onde entrou graças à autorização de milícias curdas, e em Serra Leoa afetada pelo ebola.

“Não acredito na isenção jornalística completa”, disse. “Se você vê uma pessoa em extrema necessidade, é mais importante ajudar do que fazer matéria. Mas não é tão simples.”

A jornalista foi indagada sobre o fotógrafo Kevin Carter, que cometeu suicídio em 1994 após ter feito uma famosa foto em que um urubu está à espreita de uma criança sudanesa faminta.

“O fato de ele ter se matado mostra bem o conflito do jornalista: sair do conforto de casa, entrar em contato com a desgraça dos outros e depois voltar”, disse Campos Mello. “Um consolo pequeno é saber que mostramos que o problema existe.”

De uma de suas viagens para a Síria, a repórter extraiu a história que conta em “Lua de Mel em Kobane”.

O livro de 192 páginas narra a história de Barzan Isso e Raushan Khalil, casal de curdos exilados que, logo após o casamento, resolvem ir para Kobane, enclave cercado pelo Estado Islâmico. A cidade síria, de maioria curda, se tornou um símbolo da resistência contra o grupo terrorista.

“É a história desse casal incrível, que se conheceu pela internet, sobrevivendo ao cerco na cidade”, disse a autora, que afirma ter notado como é comum ver as pessoas vivendo em aparente normalidade apesar de estarem no meio da guerra.

Sua obra costura ao relato um panorama da guerra civil no país governado pelo ditador Bashar al-Assad desde que o conflito irrompeu, em 2011, como revolta popular aos moldes da Primavera Árabe.

Na Casa Folha, Lemos descreveu “cenários dantescos” que presenciou em Monrovia, capital da Libéria, durante a crise mais aguda do ebola. “As lojas e escolas estavam todas fechadas. Não se podia tocar em ninguém. Me lembrou de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, de José Saramago”. 

Presenciando situações semelhantes em Serra Leoa, Campos Mello contou a história de uma italiana que lamentava a falta de contato humano. Por protocolo de segurança, ninguém podia se tocar, e os médicos só podiam atender aos pacientes mais se trajassem roupas de proteção. “Ela contou, então, que eles se vestiam com os equipamentos de segurança e se abraçavam.”​

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