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Livros

'Sabrina' é a primeira grande obra de ficção sobre fake news

Comedida, HQ de Nick Drnaso recebeu indicação inédita no gênero para o Man Booker Prize

ÉRICO ASSIS

Sabrina

  • Preço US$ 27,95 (cerca de R$ 104, 204 págs., em inglês)
  • Autor Nick Drnaso
  • Editora Drawn & Quarterly

Em fevereiro deste ano, um atirador matou 17 pessoas num colégio de Parkland, sul da Flórida. Alunos que perderam colegas no tiroteio montaram um movimento a favor de leis mais rígidas para a posse de armas, o #NeverAgain.

Membros da chamada "direita alternativa" dos EUA declararam que o tiroteio não aconteceu e que o movimento era formado por atores contratados pelo lobby antiarmas. Circularam vídeos no YouTube e imagens no Twitter com "provas" da conspiração.

Quem estava certo? No caso, sim, o tiroteio aconteceu, pessoas morreram e o movimento é composto por colegas dos mortos, não por atores. Mas, até se chegar a isso, tem de se atravessar o lamaçal das fake news.

O fenômeno das notícias falsas ou falseadas costuma se associar ao bate-boca nos noticiários e nas redes sociais. É algo abstrato, num terreno incerto entre verdade e mentira, e só rende a certeza de que vai provocar discussões insólitas.

Os resultados concretos das fake news geralmente são projetados no grande contexto sócio, geo e macropolítico.

"Sabrina", do norte-americano Nick Drnaso, se esforça para mostrar seus efeitos do ponto de vista micro, individual e humano. O que acontece com quem é diretamente afetado por um caso de falseamento da própria realidade?

A Sabrina do título não é a protagonista, mas uma jovem que conhecemos e acompanhamos nas primeiras páginas. Um dia ela sai de bicicleta e não volta.

Corta para um mês depois. Ficamos sabendo que ela foi assassinada. Seu namorado, Teddy, sofreu um colapso nervoso e se mudou para a casa de um amigo do colégio, em outro estado, para espairecer.

É este amigo, Calvin —um soldado da Força Aérea cuja rotina é vestir a farda para trabalhar na frente do computador— que acaba virando personagem principal.

O assassinato de Sabrina toma proporções de tragédia nacional. O assassino gravou um vídeo. O vídeo cai na internet. Os conspiracionistas começam a esmiuçar o caso.

Ela morreu mesmo? Por que o namorado se mudou? E esse tal amigo militar? As Forças Armadas estão envolvidas nesta manipulação? Serão atores contratados para encenar uma tragédia?

O comedimento é o que mais chama atenção na narrativa de Drnaso. Às vezes ao nível do exagero, como se ele fosse um narrador desinteressado no que se passa.

Suas personagens são corpulentas à la Fernando Botero, ou o clichê do norte-americano gordo. Os rostos são um traço da boca, outro do nariz, dois pontinhos para os olhos. Todas as cores são esmaecidas. Os enquadramentos lembram desenho arquitetônico, técnico, frio.

Uma cena mais forte, como a de uma banheira cheia de sangue, não leva o autor a mudar de ritmo ou de cores. Um personagem gritando ganha uma corzinha a mais no seu balão de grito. Mas só um amarelo claro.

Nunca vemos o assassinato nem o tão comentado vídeo, nem temos detalhes do que houve de brutal.

Esse tom extremamente discreto, quase desanimado, lembra filmes de baixo orçamento onde se tenta mostrar a verdade no cotidiano.

Talvez Drnaso queira justamente mostrar como a realidade mais comezinha é afetada por esse macrofenômeno antirrealidade das fake news.

Sobretudo por causa do tema, a graphic novel já é festejada como um dos grandes lançamentos da ficção em língua inglesa do ano. Tornou-se a primeira HQ a ganhar indicação ao Man Booker Prize, o quase cinquentenário e polpudo prêmio literário britânico, a ser realizado em 16 de outubro. O fato de que Drnaso concebeu sua história antes de Parkland, antes mesmo das fake news se popularizarem em torno da eleição de Donald Trump, mostra como o assunto já estava presente nos Estados Unidos.

"Sabrina" chega no momento em que o fenômeno é assunto premente —não só lá, também no resto do mundo.

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