Descrição de chapéu Crítica

'Tesnota' estabelece pacto de proximidade e atração com personagem

Premiado em Cannes, obra é o longa de estreia do jovem diretor russo Kantemir Balagov

Cássio Starling Carlos
São Paulo

“Estreiteza” e “limitação” é primeira impressão que se tem de “Tesnota”, longa de estreia do jovem diretor russo Kantemir Balagov, vencedor do prêmio da crítica na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2017.

A opção pela janela 1.37:1, um formato de projeção fechado, mais próximo do quadrado que do horizontal ao qual estamos acostumados, oferece, de imediato, uma forma determinante do sentido que o filme desdobra do início ao fim com absoluto rigor.

A escolha é coerente com as situações narradas, seu foco em um universo social acuado, as turbulências enfrentadas por uma família judia de um vilarejo do Norte do Cáucaso, próximo da zona de guerra na Tchetchênia, no final dos anos 1990.

Ansiedade e precariedade são mais percebidas na atmosfera do que representados nas imagens do filme. O sequestro de um garoto, por exemplo, situação central da trama, nem chega a ser mostrado. No seu lugar, uma elipse abrupta traduz com muito mais eficácia o sentimento de insegurança que lança os personagens numa espiral de desrazões e medos.

Como acontece com muitos estreantes ambiciosos, o rigor com que Balagov trata seu material poderia resultar em somente outro belo exercício formalista. O antídoto que o diretor encontra está no elemento humano, na presença vibrante de Darya Zhovnar, atriz estreante que interpreta Ilana, jovem que trabalha com o pai numa oficina mecânica.

Quando o irmão dela é sequestrado junto com a noiva pela máfia local, o pedido de resgate desorganiza toda a economia material e afetiva da família e implode a crença na comunidade como fator de coesão e proteção. 

Do primeiro ao último plano, Ilana é o elo dramático e físico da história. A personagem é perpassada pelos valores da tradição religiosa, pelas necessidades financeiras da família, pelas hierarquias sociais e pelos afetos do namorado. Disputada por tantas demandas, ela só consegue existir em forma de resistência.

A força maior do filme vem, portanto, do modo como as muitas contradições que atravessam a personagem conseguem ser traduzidas visualmente no vínculo entre a câmera e a atriz, criando um pacto de proximidade e atração, mas sem precisar coincidir com ela ou duplicar seu olhar. Ficamos tão junto a ela que é possível escutar sua solidão. 
 

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