Obra de João Silvério Trevisan sobre a história da homossexualidade no Brasil volta às livrarias

Com versão ampliada e atualizada, 'Devassos no Paraíso' chegou a custar R$ 800 em sebos virtuais

Guilherme Genestreti
São Paulo

O bailarino americano Lennie Dale gostava de homens brasileiros. Porque, com eles, “vale tudo”. O argentino Tulio Carella também. Passou uma Sexta-Feira Santa com um recifense apelidado King-Kong e seus 23 cm de dote. Já o belga Conrad Detrez escreveu sobre um Carnaval cheio de homens com “o sexo ereto por baixo do pareô”.

Estrangeiros em meio a “caboclos de estocadas fundas”, eles deixaram relatos do paradoxo da homossexualidade no Brasil, uma terra que reprime mas que também fermenta a libido homoerótica.

“O cafuçu é o grande mito da vida gay brasileira”, diz o escritor e cineasta João Silvério Trevisan, invocando a figura do homem rude e mestiço que, sob certas circunstâncias, sobretudo econômicas, pode dormir com outros homens.

O autor destrincha séculos de contradições da história homossexual no Brasil em “Devassos no Paraíso”, ensaio de 700 páginas publicado nos anos 1980 que volta às livrarias em edição atualizada e ampliada. Esgotado, chegou a custar R$ 800 em sebos virtuais.

“Para decifrar esse país, temos que nos entregar à ideia do mistério. É a viagem da obra”, diz o escritor em seu apartamento, próximo à praça da República, em São Paulo, mesmo lugar em que travestis batem perna e onde um adestrador de cães homossexual foi espancado até a morte por skinheads, 18 anos atrás.

A viagem de “Devassos” tem início com a inquisição, que prescreveu a fogueira ao “pecado da sodomia” —não sem antes cunhar eufemismos curiosos para as partes venéreas envolvidas (“membro viril”, “membro desonesto”, “vaso traseiro”, “parte prepóstera”).

À cruzada da religião, seguiram-se a da psiquiatria, a da polícia, a dos políticos. 

Mas essa história não tem só percalços. Trevisan escreve sobre o papel de vanguarda das artes para acolher LGBTs. 

Desde os anos coloniais, onde havia uma coxia podia haver uma transformista. Os palcos dos cabarés acolheram Madame Satã, misto de malandro e diva da Lapa. O teatro de revista foi lar de Rogéria, autoproclamada “travesti da família brasileira”.

A música proporcionou as letras dúbias de Assis Valente, o rebolado de um maquiadíssimo Ney Matogrosso, e também viu a Aids ceifar a vida de Cazuza e de Renato Russo. Às fotos de Alair Gomes e de Pierre Verger, nunca escaparam detalhes da anatomia do homem brasileiro.

A era do desbunde revelou a purpurina dos Dzi Croquettes, atores-dançarinos que bagunçaram as fronteiras do gênero. Na década de 1980, foi a vez da cantora e perfomer Claudia Wonder e de Roberta Close, modelo trans que esgotou em três dias 200 mil exemplares da Playboy.

No capítulo dedicado à literatura, muitas páginas a Mário de Andrade. O pai de Macunaíma costumava escandir sílabas ao se regozijar (“uma de-lí-cia!”) e teria dito não haver música mais bonita do que o “ruído do cinto de um fuzileiro naval batendo na cadeira”.

Foi em cartas que ele falou de seu desejo. Uma delas, em que o escritor em tese tratava de sua condição gay de forma explícita, foi trancafiada na Fundação Casa de Rui Barbosa e virou alvo de ação movida pela Controladoria-Geral da União até enfim ser revelada.

“Devassos” começou como uma “empreitada egoísta”, segundo o seu autor. “Queria saber onde eu estava, como homossexual brasileiro”, afirma.

Ex-seminarista, fã de Rimbaud, Trevisan se entendeu interessado por gente do mesmo sexo em plena ditadura. 

Dirigiu o filme “Orgia ou O Homem que Deu Cria”, expoente do cinema marginal, em 1970 e, logo depois, mandou-se para Berkeley, cidade universitária na Califórnia que foi vanguarda da contracultura. Bem perto dali, San Francisco então estava prestes a eleger Harvey Milk, um dos primeiros políticos homossexuais assumidos dos Estados Unidos.

De volta ao Brasil, Trevisan ajudou a pôr em marcha o incipiente ativismo gay –ou guei, como prefere. Fundou o grupo afirmativo Somos e ajudou a tocar o Lampião da Esquina, jornal de temática homossexual, a partir de 1978. 

“Sempre escrevi sobre o baixo nível político da comunidade LGBT”, diz o escritor. “Não posso dizer isso mais. Houve um crescimento de consciência, que fez a demanda pelo livro, esgotado, aumentar.”

Foi a politização que o levou de volta a “Devassos”. Ele atualizou a obra com considerações sobre as últimas décadas, como a ascensão de Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, a multiplicação de paradas gays e a polêmica em torno da mostra “Queermuseu”. 

A pulverização de fronts fez transbordar a sopa de letrinhas das siglas —GLS, LGBT, LGBTQ, LGBTQIA, LGBTQIA+—, algo que Trevisan não comemora. Corre o risco, afirma ele, de “rachar a comunidade”. O autor também não é fã da “moda do empoderamento e do lugar de fala”.

“Isso vai contra toda a luta que se tem feito para buscar a liberdade sexual neste país. Lugar de fala exige escuta.”

Aplicativos de paquera, que moldam a vivência gay nas cidades, também não passam incólumes. “Estão matando o amor entre os homens. Há uma parcela da comunidade que se aproveitou das conquistas para chegar ao conformismo do sexo efêmero.”

Trevisan, que é testemunha dos últimos 50 anos dessa história, também se vê por vezes surpreendido. Para o bem.

Foi em 2013, num ato contra a permanência do pastor e deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que ele viu garotas empunhando cartazes com os dizeres: “Meu cu é laico”.

“Numa frase resumiu-se o fulcro do problema do macho brasileiro”, diz, empolgando-se no seu sofá. “Ao se abraçar aquele elemento que é motivo de tanto encanto e tanta repulsa, algo de maravilhoso aconteceu. O Brasil finalmente passou a compreender o cu.”

Devassos no Paraíso
João Silvério Trevisan. Ed. Companhia das Letras. R$ 74,90 (744 págs.). Lançamento nesta quarta (12), às 19h, na Casa do Baixo Augusta, r. Rego Freitas, 553, São Paulo. 

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