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Biólogo busca 'O Sentido da Existência Humana' em 168 páginas

Ainda que aquém das expectativas, livro de Edward O. Wilson é retrato iluminador do que é ser um Homo sapiens

O Sentido da Existência Humana

  • Preço R$ 54,90 (168 págs.)
  • Autor Edward O. Wilson. Trad.: Érico Assis
  • Editora Companhia das Letras

Quando um autor resolve pespegar um título como “O Sentido da Existência Humana” num livro de menos de 200 páginas, a primeira impressão é que é impossível não decepcionar o leitor com esse ato de soberba. A não ser, é claro, que o autor em questão seja Edward Osborne Wilson.

Aos 89 anos, o biólogo da Universidade Harvard resolveu condensar as principais descobertas da teoria da evolução sobre a natureza do ser humano nesse pequeno volume. O resultado, ainda que de fato fique aquém das expectativas geradas pelo título altissonante, vale a pena: é um retrato iluminador, compassivo e, curiosamente, conservador do que significa ser um membro da espécie Homo sapiens.

Antes de mais nada, trata-se de um retrato essencialmente darwinista, é claro. Para Wilson, o único jeito correto de entender como chegamos até aqui é aceitar as raízes da humanidade como uma forma muito peculiar de grande símio africano, cujos corpos e mentes foram moldados, em todos os detalhes, pelo escultor cego conhecido como seleção natural.

O cientista americano Edward Osborne Wilson, observa formigas em seu laboratório, em 1998 - Reprodução

O paradoxo explorado por Wilson, porém, é que essa mesma origem humilde, indistinta das demais formas de vida, deu aos seres humanos uma capacidade de compreender o universo, e de transformar os ecossistemas da Terra, muito superior às de qualquer outra espécie. Esse paradoxo é o principal responsável pelos riscos existenciais que a humanidade enfrenta hoje, segundo ele.

Quem já tem familiaridade com a vasta obra de Wilson dedicada ao público leigo certamente reconhecerá no novo livro pequenos resumos ou ecos temáticos de outros volumes, com sabor de retrospectiva —ainda que possuam charme próprio.

Feto de 20 semanas chupa o dedo no útero da mãe - Lennart Nilsson/Reuters

A seção “Outros Mundos”, por exemplo, tem muito da força descritiva e do lirismo de “O Futuro da Vida” (lançado originalmente em 2003), livro no qual o biólogo lançou um apelo pragmático, mas também ético e estético, em favor da biodiversidade ameaçada pela ação humana. Como bom entomólogo (estudioso de insetos), Wilson é especialmente eficaz ao se debruçar sobre o mundo do muito pequeno, da cooperação complexa entre formigas às paqueras bioquímicas de mariposas.

Engana-se, porém, quem presta atenção apenas nos aspectos inegavelmente fofos da retórica de Wilson, considerado por quase todos os que o conhecem como um dos últimos grandes gentlemen da ciência mundial. Ele se mostra mais do que disposto ao pugilato científico quando condensa o conteúdo de sua obra mais controversa, “A Conquista Social da Terra”, de 2013, que despertou a ira de grandes nomes da biologia evolutiva.

É que, nesse livro, o americano, retomando argumentos de estudos recentes em periódicos especializados, desafia a visão ortodoxa sobre a chamada seleção de parentesco ou aptidão inclusiva. Grosso modo, trata-se da cooperação “nepotista” entre organismos aparentados, que aumentaria as chances de eles passarem os genes que compartilham para as gerações seguintes.

A seleção de parentesco explicaria o surgimento das grandes sociedades de insetos —como as colmeias de abelhas, um exército de irmãs estéreis produzidas por uma única rainha-mãe— ou mesmo os primeiros passos das sociedades humanas. Wilson, porém, rebelou-se contra essa ortodoxia, argumentando que, no mundo real, as condições que favoreceriam esse processo seriam raras. De quebra, ainda chama um de seus críticos, o papa da divulgação científica Richard Dawkins, de mero “jornalista”. (Essa doeu aqui.)

Embora reconheça as mazelas inerentes à condição humana —com o tribalismo no topo da lista—, Wilson faz uma defesa apaixonada do lado luminoso da nossa herança biológica, opondo-se, por exemplo, a uma possível manipulação “melhoradora” do DNA da espécie no futuro.

Não adianta sonhar com uma reforma da natureza ou com a colonização da galáxia, defende ele. Só o reconhecimento do caráter frágil e único da biosfera terrestre saciará a fome humana por um sentido da vida.

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