Inhotim desempacota instalação monumental e luta para afugentar aperto

Em avaliação de contas e processos, parque-museu mineiro estreia novas exposições temporárias

Instalação ‘Vitruvian Figure’ (2008), de Paul Pfeiffer; agora exposta, a obra foi arrematada para Inhotim por Bernardo Paz e ficou dez anos desmontada  William Gomes/Divulgação

Gabriela Longman
Brumadinho (MG)

O ano é 2008. Exibida pela primeira e única vez durante a Bienal de Sydney, a instalação monumental "Vitruvian Figure", de Paul Pfeiffer, é arrematada por Bernardo Paz. Passa dez anos dormindo, desmontada numa caixa, até ser remontada e entrar em exibição um mês atrás no parque-museu de Brumadinho, em Minas Gerais.

Num momento de queda de receitas e imbróglios judiciais envolvendo seu idealizador, Inhotim segue o desafio de diferentes instituições culturais no Brasil: tentar fazer o mesmo --ou quase o mesmo-- com menos.

Depois de sete anos de expansão vertiginosa, com a construção das 23 galerias que compõem o parque, a instituição puxa as rédeas --o último pavilhão permanente inaugurado foi o de Claudia Andujar, em 2015. O único em vista é o de Yayoi Kusama, previsto para 2020.

"A gente está saindo de uma pausa estratégica, de um balanço de recursos e de uma mudança geral que coincidiu com nossos dez anos. Essa parada permite olhar para o acervo e pensar o que a gente planeja para os próximos dez ou 20 anos", diz a diretora artística Maria Eugenia Salcedo. Com o curador Allan Schwartzman trabalhando de Nova York, é ela a responsável por boa parte do dia a dia da instituição.

A hora é de olhar para o que há na dispensa. Em concomitância com a abertura da Bienal de São Paulo, há um mês, a instituição trocou as obras expostas em três de suas galerias temporárias.

Além do estádio de Pfeiffer, estão em exibição projetos inéditos de David Lamelas, Robert Irwin e Yayoi Kusama, além de um panorama de trabalhos em vídeo. "O público ainda vai ter noção do que é o acervo do Inhotim ao longo do tempo", diz a curadora. Das 1.300 obras de Paz na coleção do instituto, cerca de 700 estão expostas.

Assim como "Do Objeto para o Mundo", recorte do acervo exibido no Palácio das Artes, em 2014, e no Itaú Cultural, em 2015, nada impede que as novas exposições temporárias circulem depois como mais uma forma de gerar receita.

Na mesma cadência, o instituto espera atrair mais shows e eventos de parceria, como o Festival Meca. Até o momento, a instituição captou só R$ 4,5 milhões dos mais de R$ 33 milhões que está autorizada a captar --e o orçamento para 2019 ainda não foi definido.

Um olhar sobre os patrocinadores do Inhotim ao longo do tempo, permite traçar um mapa da economia da mineração nos últimos dez anos.

Entre eles, estão empresas do setor minerador (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, Minerações Brasileiras Reunidas S.A., CSN, Vale), de energia (Cemig, Light, Aliança Geração de Energia) e financeiro (Itaú, Banespa, Credit Suisse), além de empresas de areia, pneus, telefonia e outros, foram as maiores responsáveis pelo aporte dos mais de R$ 81 milhões captados via Lei Rouanet desde 2008.

Atualmente, a principal parceria é a firmada com a CBMM. A companhia da família Moreira Salles, com instalações de produção e sede em Araxá (MG), é líder global no mercado de nióbio.

Além de financiar a construção do pavilhão de Kusama, a parceria contempla a restauração da obra "Narcissus Garden", bolas espelhadas que flutuam no lago da instituição.

"Inhotim teve uma pauta muito grande de expansão, ainda tem, mas essa expansão necessita de uma atenção ao que já existe. Não precisamos sempre construir", acrescenta a curadora.

Mas manter também custa caro. Na semana passada, o instituto participou da feira ArtRio buscando adesões para os programas Amigos do Inhotim (doação de pessoas físicas via dedução do IR) e Ciclo de Patronos, direcionado a colecionadores. Enquanto Paz aguarda julgamento em segunda instância pelos crimes de lavagem de dinheiro, a instituição trabalha para andar de forma cada vez mais autônoma em relação à sua figura.

No início de abril, o colecionador e o governo de Minas Gerais assinaram um acordo para a transferência de 20 obras como forma de quitar dívidas. As obras continuam em comodato no Inhotim, mas agora são do estado.

Voltando à obra de Pfeiffer, a maquete de um estádio vazio amplificada para um milhão de assentos (em vez dos 80 mil do estádio real) não deixa de ser emblemática. Em tempos de incerteza para instituições de todas as áreas, a metáfora parece extrapolar, e muito, os muros de Brumadinho.

A jornalista viajou a convite do Instituto Inhotim

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