Debate sobre guerras culturais tem tom enérgico e opõe atores e cineastas

Atriz trans diz querer transformar o ódio que recebe em amor; Carlos Vereza afirma não gostar de 'ditadura das minorias'

João Perassolo
São Paulo

“A gente não quer mais visibilidade. Visibilidade não paga as minhas contas. Eu quero representatividade, que vejam que eu existo e que estou aqui para debater”, diz Gabriela Loran, a primeira atriz trans em 23 anos da novela "Malhação", da TV Globo.

A fala de Loran abriu o segundo de uma série de debates em comemoração dos 60 anos da Ilustrada, no auditório da Folha, em São Paulo, nesta quarta (21) à noite. 

Ela debateu, junto com os cineastas Josias Teófilo e Luiz Bolognesi, mais o ator Carlos Vereza, sobre o tema “Guerra Cultural: Políticas de Identidade x Moralidade na Arte”. A mediação ficou a cargo do repórter especial da Folha Ivan Finotti.

O debate foi quente e agitado, tanto pelo tom emocionado da participação de Loran quanto pela falas enérgicas de Carlos Vereza e Luiz Bolognesi. Em determinado momento, houve um embate entre Vereza e um espectador, que vaiou repetidas vezes as suas falas.

Gabriela Loran, 25, que é militante LGBTI+ e também se afirma como travesti, contou que sofreu muitos ataques em reportagens na internet a respeito de sua participação em "Malhação". Segundo ela, as ofensas vinham de candidatos do presidente eleito Jair Bolsonaro —embora ela não tenha mencionado o nome do político diretamente. 

Ela afirmou não ter medo de tais ataques e disse que quer “transformar este ódio que recebe em amor” e “em vontade de lutar”. Sua tática é “usar a voz que tem” e “ocupar o espaço” que lhe dão, afirma, no país que mais mata transexuais no mundo.

Finalmente, Loran defendeu que as escolas adotem uma educação mais aberta. Segundo ela, “crianças trans e viadas” são evadidas em um ambiente de ensino que prioriza crianças heterossexuais. “Não me lembro de nenhuma referência feliz da minha escola. Só era feliz no banheiro, quando chegava em casa botava toalha na cabeça e música alta. Aquele era o espaço que eu tinha”, disse, quase em lágrimas.

Carlos Vereza, conhecido por seus papéis no filme “Memórias do Cárcere” e na novela “O Rei do Gado”, teve a participação mais enérgica da noite. Gesticulando muito, falou que “uma guerra cultural nunca é dissociada de uma postura ideológica” e que, na verdade, guerras culturais são guerras de poder. “Marxistas, ateus, evangélicos, agnósticos, todos têm as suas visões. A cultura é uma soma de manifestações, e inclusive fake news é uma forma de cultura.” 

Ele afirmou que a diferença o toca e o comove, mas comentou também não gostar da “ditadura das minorias”. Para o ator, não se pode dizer para uma criança escolher se ela vai ser menino ou menina.

“O código genético não muda, o DNA não muda: é XX para mulher e XY para homem. É a história da civilização que diz isso.” O ator, que declarou seu voto em Jair Bolsonaro, comentou que poderia não ter votado em um militar, já que foi sequestrado pelo Doi-Codi durante a ditadura e torturado. Quanto a isso, disse “não olhar a história pelo retrovisor” e que procura entender Bolsonaro em seu contexto de hoje.

Vereza foi vaiado por um participante e chegou a se levantar do palco e descer para a plateia, trocando acusações com o espectador. Foi necessária uma intervenção do mediador para que o debate prosseguisse com certa normalidade.

O documentarista Josias Teófilo, que dirigiu “O Jardim das Aflições”, sobre o escritor Olavo de Carvalho, um dos gurus do bolsonarismo, fez uma feroz crítica aos cineastas brasileiros. Segundo ele, “99,9%” dos cineastas do país eram alinhados ao governo Lula, e isso impedia uma pluralidade de vozes necessária à democracia.

Ele disse que estava preparado para perder amigos e ser excluído do meio do cinema ao optar por filmar a história de Olavo de Carvalho. Contou ainda que um espectador de seu filme foi agredido com um pedaço de pau em uma sessão na Universidade Federal de Pernambuco por um manifestante de esquerda, e emendou: “O petismo é uma espécie de religião degradada —o comportamento de certos petistas é de religiosos fanáticos”.

“O Jardim das Aflições” foi o grande vencedor da 21ª edição do Cine PE, ganhando como melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo popular.

Luiz Bolognesi, roteirista de “Bicho de Sete Cabeças” que sucedeu Teófilo no microfone, acusou o colega de ter “falta de ética” e disse que suas opiniões sobre o cinema brasileiro não eram embasadas em dados da realidade. “Falo isso olhando para você. É ignorância ou falta de ética, e eu teria muita vergonha. É um argumento pobre." 

Bolognesi ironizou as falas de Teófilo, citando filmes de diferentes gêneros e questionando se obras tão distintas quanto “Cidade de Deus”, “Topa de Elite” e “De Pernas Para o Ar” são todas marxistas.

O cineasta disse achar a palavra guerra inexata para definir o tema da noite, “guerra cultural”. Para ele, o correto seria falar em “debate de ideias”, porque a cultura é o espaço da diversidade: “o fato de eu pensar diferente é rico, é um dos grandes baratos da existência”. Bolognesi definiu arte recorrendo a Freud —as manifestações artísticas seriam uma foram de sublimar os impulsos destrutivos do homem.

Por fim, houve um breve debate sobre a Lei Rouanet. Carlos Vereza afirmou que “a lei não tem culpa e não pode ser detonada” pelo atual contexto de polarização política do país. Ele defendeu a continuação da lei, mas com uma condição: que sirva para financiar produtores e artistas jovens, que não teriam acesso ao mercado, segundo disse.

Josias Teófilo também enxerga problemas no principal mecanismo público de financiamento à cultura e criticou o fato de uma companhia como o Cirque du Soleil vir ao Brasil e captar milhões usando a Rouanet. 

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