Descrição de chapéu Crítica

Dupla de protagonistas faz de 'Um Homem Comum' um grande filme

Veterano Ben Kingsley e islandesa Hera Hilmar interpretam general e faxineira

Thales de Menezes
São Paulo

Um Homem Comum

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Ben Kingsley, Hera Hilmar
  • Produção EUA/Sérvia, 2017
  • Direção Brad Silberling

“Um Homem Comum” é um projeto que Ben Kingsley tratou de produzir com carinho. Provavelmente enxergou no filme a chance de outro grande papel, como desempenhou em “A Morte e a Donzela” (1994) ou “Sexy Beast” (2000), além de “Gandhi” (1992), que deu a ele um Oscar. E o ator inglês estava certo.

O roteiro é enxuto e certeiro, desenrolando uma história em grande sintonia com estes tempos difíceis de conflitos étnicos. Seu personagem é um general acusado de crimes de guerra na antiga Iugoslávia, um homem que todos os tribunais competentes para questões internacionais querem levar a julgamento.

Mas parece ser impossível capturar o General (assim o personagem é tratado, sem um nome a identificá-lo). Uma rede de apoiadores o protege. Ele é transferido constantemente de esconderijo, recebendo vigilância e apoio para roupas e comida.

Os atores Hera Hilmar e Ben Kingsley em cena de ‘Um Homem Comum’ 
Os atores Hera Hilmar e Ben Kingsley em cena de 'Um Homem Comum' - Divulgação

Numa dessas trocas de local, o General se muda para o apartamento de uma senhora, despejada de uma hora para outra, “para o bem da causa”.

Lá, ele é surpreendido pela chegada de Tanya, uma jovem faxineira que trabalhava para a antiga moradora. De alguma forma a mulher o atrai, e ele decide manter seus serviços.

Tanya sabe quem é o novo morador, demonstra medo e tenta fugir dali, mas o General, num processo que mistura sedução com autoridade, obriga a moça a trabalhar para ele.

Ao mesmo tempo, a garota na tela e o espectador na plateia vão travando contato com a personalidade do homem que comandou o massacre de centenas de pessoas. O General é arrogante, prepotente, regido por uma ética muito peculiar e com tênues limites morais.

Confiante, não hesita em sair às ruas, correndo risco até na simples compra de um jornal ou de um maço de cigarros. Tanya vai se afeiçoando ao General. A ponto de, a partir de certo momento da trama, estar mais preocupada com a segurança do ex-comandante do que ele próprio. E o perigo ronda a dupla.

É fundamental para o sucesso do filme a presença magnética de Kingsley, que aos 74 anos ostenta uma carreira de mais de 140 atuações. Mas nesse “Um Homem Comum” ele não dispensa uma ajuda preciosa.
A atriz islandesa Hera Hilmar, 29, empresta charme e credibilidade à figura complexa de Tanya. A personagem transita entre o medo e a atração, entre a fragilidade e a coragem.

Seus olhares para o General são intensos, expressivos, e conduzem a plateia na tarefa de tentar entender a mente de um homem tão cruel. Ao mesmo tempo, o passado de Tanya também traz alguma dose de mistério. O General fica tão interessado nela que se arrisca a sair do apartamento para conhecer o mundo da garota. O que permite à produção um desfile de belíssimas imagens de Belgrado, na Sérvia.

Para completar os predicados do filme dirigido com competência pelo americano Brad Silberling, nome mais ligado a séries de TV, o roteiro tem pelo menos dois desvios de rota que vão surpreender o público, principalmente num final desconcertante.

Com pouco menos de uma hora e meia, “Um Homem Comum” é um grande filme.

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