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Diário da queda: na literatura, 2018 teve crise das livrarias e prêmio falso

Nobel de literatura foi adiado após prêmio se ver no centro de escândalo sexual

Colagem de Alex Kidd

Colagem de Alex Kidd Alex Kidd

Maurício Meireles
São Paulo

Em “O Sol Também se Levanta”, o romance de Ernest Hemingway, um personagem pergunta como outro foi à falência. “De dois modos”, responde ele. “Pouco a pouco e então de repente.”

A resposta também pode ilustrar a situação a que chegou o mercado editorial em 2018 e o ano novo de incertezas que se anuncia —embora, é claro, o setor não tenha ido à falência como um todo.

Depois de anos de práticas perigosas, como a consignação, guerra e defasagem de preços, além de dívidas de livrarias que se acumulavam, o setor chega ao fim do ano com as duas principais redes de livrarias do país, a Saraiva e a Cultura, no início de um processo de recuperação judicial. Juntas, elas acumulam dívidas de quase R$ 1 bilhão.

É cedo para saber se as duas redes vão se reerguer, mas sem dúvida sairão desse processo menores —na verdade, já chegam a ele encolhidas, com o fechamento de lojas e diversas demissões.

Aí está o nó que os editores precisam desatar em 2019. Ainda não há solução no horizonte. A maior parte dos editores apostava que o presidente Michel Temer estabeleceria o preço fixo do livro no Brasil, inspirado em políticas semelhantes de países europeus —impopular, a iniciativa limitaria a 10% o desconto sobre o preço de um livro lançado durante um ano.

O mais provável, no governo Jair Bolsonaro, de orientação ultraliberal na economia, é que a ideia seja sepultada. Agora resta saber que novo arranjo a mão invisível do mercado vai criar —e quem sairá vivo ao fim do processo.

Ano teve prêmio falso e cancelamento do Nobel de literatura

A mentira não é algo estranho ao meio literário. Mas, neste ano, ela parece ter chegado ao paroxismo. O escritor Antonio Salvador criou o Babel Book Award, prêmio que prometia € 200 mil (R$ 802 mil) a um escritor de língua portuguesa. Só que havia um detalhe —o prêmio era falso.

Mas este ano foi difícil também para os prêmios verdadeiros. O Nobel de literatura foi engolido por um escândalo sexual. Jean-Claude Arnault, marido de uma integrante da Academia Sueca, instituição que concede o troféu, foi acusado de assédio por 18 mulheres e, em outubro, foi condenado à prisão por estupro. No desenrolar da crise, o prêmio foi adiado. No ano que vem, dois autores serão escolhidos.

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