Descrição de chapéu Crítica

Livro narra a criação de uma banda que de tão boa nem fez sucesso

Em 'À Sombra dos Viadutos em Flor', Cadão Volpato refaz a trajetória de seu grupo Fellini e do rock sem badalação

Thales de Menezes

À SOMBRA DOS VIADUTOS EM FLOR

  • Preço R$ 49,90 (144 págs.)
  • Autor Cadão Volpato
  • Editora SESI-SP Editora

No título que brinca com "À Sombra das Raparigas em Flor", de Marcel Proust, os viadutos citados são aqueles que se concentram no início da avenida Nove de Julho, em São Paulo, na região central da cidade.

No início dos anos 1980, foi ali que o hoje escritor reconhecido Cadão Volpato dividiu apartamento com dois amigos e contribuiu para a formação de uma pequena turma que iria tomar posições no jornalismo cultural daquela década.

Para quem se interessa por música, "À Sombra dos Viadutos em Flor" é também um pequeno volume de memórias que narra a criação do Fellini, grupo na ativa entre 1984 e 1990 e que mantém hoje uma aura cult após décadas de raríssimas reuniões de seus integrantes.

No quarteto de rock, Cadão era vocalista e "culpado" pelas letras com referências a clássicos do cinema e da literatura, notadamente de produções da Europa. Não por acaso, o quase hit do Fellini se chama "Rock Europeu".

Mas o livro pode ser lido e interpretado como um documento mais amplo. O Fellini aparece como exemplo de uma juventude paulistana que acalentava sonhos roqueiros, de uma maneira muito mais despretensiosa do que a demonstrada pelas gerações seguintes.

Em 1983, quando o Fellini se agrupava enquanto Cadão era revisor da revista Veja e vivia dias e noites intensos apaixonado pela namorada, o que passaria a ser chamado de BRock engatinhava.

Até então, badalação de verdade era pouca, apenas para uma primeira leva carioca, de Blitz, Barão Vermelho, Lulu Santos e Ritchie. As bandas de Brasília ainda estavam no meio do caminho entre o Planalto Central e o eixo Rio-SP.

Para falar sobre a então embrionária cena paulistana, Cadão é o mensageiro ideal. Primeiro, porque escreve muito bem. Segundo, porque sua banda era muito boa. Tão boa que não fez sucesso.

Para ser simpático, é possível dizer que o circuito de shows era simples. Na real, era paupérrimo. O Fellini tocava em porões sonoros que eram também frequentados por bandas que pouco tempo depois estariam no programa do Chacrinha. Quanto ao Fellini, o máximo que conseguiu foi trocar um porão por outro.

Mas o estilo personalíssimo da banda arrebatou fãs de extrema devoção. Fellini é um rock desconstruído ("antirock"? "no rock"?), com influências musicais que o livro expõe de forma explícita: Stranglers, King Crimson, Cabaret Voltaire, Bowie, muitas coisas obscuras e mais Stranglers.

A diferença entre a geração do autor e a moçada que veio depois foi encarar música, cinema ou literatura apenas como desejo de expressão artística. Ganhar dinheiro sistematicamente com essa produção não era uma alternativa clara para Fellini, Voluntários da Pátria, Smack e outros aventureiros.

"À Sombra dos Viadutos em Flor" não é didático sobre a carreira do Fellini. Pesquisas na internet são mais objetivas para conhecer os ótimos álbuns da banda e seu caminho até a mais recente de suas raras apresentações, em 2016.

Mas é um livro muito atraente para quem sabe o que é se deparar com aquele momento na vida em que sonhos morrem ou vão para frente, do jeito que der.



 

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