Contratada pela Universal, As Bahias e a Cozinha Mineira lança canção-denúncia

Liderado por transexuais, grupo despontou nos últimos quatro anos em shows e métricas de streaming

Retrato de Raquel Virginia, Rafael Acerbi e Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira
Retrato de Raquel Virginia, Rafael Acerbi e Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira - Pedro Dimitrow/Divulgação
Rafael Gregorio
São Paulo

É janeiro de 2019. Jair Bolsonaro, que preferia ter um filho morto a homossexual, assume a Presidência. Ao mesmo tempo, em suas primeiras prospecções no ano, a Universal, a maior gravadora do mundo e líder no mercado nacional, contrata uma banda brasileira liderada por duas cantoras transexuais.

O grupo é As Bahias e a Cozinha Mineira, que despontou nos últimos quatro anos em shows e métricas de streaming na esteira de dois discos independentes: “Mulher” (2015) e “Bixa” (2017), que ganhou dois troféus no Prêmio da Música Brasileira de 2018.

“A Universal é uma empresa de entretenimento. A gente se norteia pelo talento, pela qualidade do artista. Jamais vou deixar de contratar alguém porque há uma tendência [homofóbica] no poder. Pelo contrário: é um momento em que o Brasil precisa que artistas como elas tenham visibilidade”, diz Paulo Lima, 48, presidente da Universal Music Brasil.

Para a cantora Raquel Virginia, 30, uma banda liderada por duas transexuais ser contratada por uma grande gravadora ajuda a ampliar no subconsciente coletivo a compreensão de que transexuais podem exercer qualquer atividade.

“A gente tem muito a contribuir com a música brasileira, e acho que ela está precisando ser oxigenada”, diz Raquel. “O que eu espero é cantar na abertura da novela e isso ser visto com naturalidade.”

Na vida real, contudo, as aspirações são mais prosaicas: “Meu sonho é poder circular tranquilamente, porque muitas vezes é muito difícil ir e vir pelo simples fato de ser trans.”

Raquel, a colega Assucena Assucena, 30, e o guitarrista Rafael Acerbi, 27, formaram o conjunto em 2011 na faculdade de história da USP, onde estudaram.

“A gente gosta muito do independente, de ter controle do processo do início ao fim, mas nesse momento tenso é interessante que a minha vida, a da Raquel e a da Assucena estejam amparadas por uma estrutura”, reforça Rafael.

Para além da dissonância com a ascensão conservadora, o contrato com a empresa é marcante no âmbito musical.

O grupo sobressai com relação a outras atrações de peso da nova música brasileira que concentraram atenções de mercado e público nos últimos anos, a exemplo das cantoras Lineker (também transexual) e Letrux.

Além disso, a empresa sinaliza ainda apostar no rock e na MPB, na contramão das ascensões vertiginosas _predatórias e economicamente desleais, dizem críticos_ do sertanejo e do funk.

Para marcar a nova fase e antecipar o primeiro disco sob a égide da grife, que está sendo finalizado e deve ser lançado neste primeiro semestre, As Bahias lançaram na última sexta (25) uma nova canção, chamada “Das Estrelas”.

A música veio acompanhada de videoclipe cuja trama combina uma história de amor e violência. Na narrativa, dirigida por Rafael Carvalho, um homem se apaixona por uma mulher transexual e, questionado em sua masculinidade, reage de forma brutal.

Quem dá vida à protagonista é a atriz Renata Carvalho, que interpretou Jesus Cristo na peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, dirigida por Nathalia Mallo e alvo de censuras políticas e judiciais em 2017 e 2018.

A fábula realista serve de denúncia didática, ao encontro do Dia Nacional da Visibilidade Trans, nesta terça (29), diz Raquel, e a inspiração não foi uma pessoa ou um episódio específico, mas muitas pessoas e muitos episódios.

“No roteiro, nos baseamos em passagens que envolvem eu, Assucena, amigas e as próprias estatísticas”, explica Raquel, referindo-se a dados como os da ONG austríaca Transgender Europe, segundo os quais o Brasil foi, em 2018, o país onde mais pessoas transexuais morreram.

“Uma mulher trans ser protagonista nesse momento em que premissas LGBTs são retiradas das diretrizes sobre direitos humanos é uma denúncia de que nos assassinam quando nos matam, mas também quando nos tiram empregos”, comenta Assucena. “Só que a gente vai continuar gritando. E esse megafone foi a gente que construiu; portanto, é nosso.”

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