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Em livro, Guilherme Wisnik usa névoa como metáfora da catástrofe iminente

Com os ensaios de 'Dentro do Nevoeiro', arquitetos e propõe a refletir sobre mundo de hoje

demolição do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe

demolição do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe divulgação / Ubu

João Perassolo
São Paulo

O nevoeiro como metáfora para o mundo contemporâneo. A ideia, que o arquiteto e professor da FAU-USP Guilherme Wisnik diz ser original por não ter uma filiação teórica aparente, foi o ponto de partida para seu novo livro, “Dentro do Nevoeiro”, que acaba de ser lançado pela editora Ubu.

Trata-se de uma série de oito ensaios —que podem ser lidos isoladamente, mas que funcionam melhor em conjunto— sobre como a névoa é uma chave para entender diversos campos da atualidade.

Por exemplo, na arquitetura, o vidro, símbolo da transparência do modernismo, deu lugar a construções de aparência leitosa, translúcida, a exemplo do prédio do Instituto Moreira Salles, em São Paulo. No urbanismo, grandes cidades chinesas como Pequim são encobertas por uma fumaça advinda da poluição, ao passo que ganham cada vez mais relevância “as nuvens de informação da internet, para onde tudo vai se deslocando progressivamente no ciberespaço”, escreve o autor.

 

“Gosto de trabalhos que tratam de fumaça, como os do [artista islandês] Olafur Eliasson e os do [casal de arquitetos] Diller Scofidio, o que foi me trazendo para este conceito. E também de Marcel Duchamp e de Joseph Beuys. Enfim, de uma linhagem artística que se contrapõe à ideia da imagem nítida”, diz, citando as referências que originaram o conceito. 

Nesta toada, o arquiteto afirma ter “aversão ao excesso de nitidez do mundo da publicidade e da internet”, e enxerga que “o caminho da resistência se dá pela via do embaçamento”.

Os eventos históricos formadores da era da fumaça remontam às duas guerras mundiais, sobretudo à primeira, quando se inaugurou o uso de armas químicas, a exemplo dos gases utilizados em batalhas na Bélgica.

Mas os momentos centrais para a tese de Wisnik se deram a partir dos anos 1970: a demolição do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, em Saint-Louis, nos Estados Unidos, em 1972, que marcou o início do pós-modernismo; a queda do muro de Berlim, em 1989; o 11 de Setembro, quando “pessoas correm desesperadas pelas ruas e avenidas de Nova York, perseguidas por uma imensa coluna de fumaça que se expande em uma voragem vertical seguindo a altura vertiginosa dos arranha-céus da cidade”, escreve; e o estouro da bolha financeira de 2008, que “não criou uma nuvem mas era uma combustão”, afirma.

No decorrer das páginas, nota-se que a névoa de que fala o autor é parte de um contemporâneo de espírito muito sombrio. A cerração de Wisnik paira sobre um mundo no qual uma catástrofe —um atentado terrorista, um tsunami— pode eclodir a qualquer momento. Somos seres vivendo em um constante estado de entorpecimento causado pelas telas dos celulares, à espera do pior.

Contudo, Wisnik também vê aspectos positivos no meio do embotamento. Valendo-se de inspirações psicanalíticas, o autor afirma que ser capaz de reconhecer e de nomear a opacidade é algo benéfico. Significa “ter alguma clareza em tempos de indefinição”. 

No livro, cita o filósofo Giorgio Agamben, para quem ser contemporâneo não é aderir cegamente ao seu tempo, mas sim manter certa distância analítica em relação a ele. O contemporâneo é “aquele que sabe ver essa obscuridade, que sabe escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”, sustenta o filósofo.

“Dentro do Nevoeiro” é resultante da tese de doutorado do arquiteto, defendida em 2012 na FAU-USP. Estava inicialmente previsto para ser publicado pela Cosac Naify, mas, com a extinção da casa, no final de 2015, o volume ficou órfão. 

À espera de uma nova editora, o arquiteto conta que teve vontade de reescrever “muita coisa, porque o mundo mudou muito depois de 2013, pelo menos aqui no Brasil”, diz. “O livro é sobre atualidade, coisas que precisavam de mais explicação.”

Dentro do Nevoeiro
Guilherme Wisnik. Ubu. R$ 54,90 (352 págs.)

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