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Cinema Oscar 2019

'Green Book' trata da solidão com humor sutil e surpreende pela paixão

Longa de Peter Farrelly é uma espécie de 'Conduzindo Miss Daisy' às avessas

Inácio Araujo

Green Book: O Guia

  • Quando Estreia nesta quinta (24)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Peter Farrelly

De Peter Farrelly sempre se pode esperar alguma surpresa, desde que, junto com seu irmão Bobby, relançou o burlesco com “Débi e Loide” (1994). Muita água passou debaixo da ponte: os gostos mudaram, o orçamento dos filmes, as produções para grande público etc. Mesmo o burlesco dos irmãos Farrelly se enfraqueceu com o tempo.

Surge então “Green Book: O Guia”, em princípio um filme dramático. Uma espécie de “Conduzindo Miss Daisy” com sinais trocados. Aqui, um leão de chácara italiano momentaneamente desempregado é contratado, em 1962, para chofer e segurança de um importante pianista negro durante uma excursão ao Sul dos Estados Unidos.

Tony Vallelonga, o leão de chácara. Italiano de origem, é racista, como quase todo mundo nos EUA da época. Essa é a menor das diferenças entre ambos. Dr. Shirley, o pianista, é um homem culto, por vezes até pedante. Tony é um bronco, com um tipo de experiência do mundo bem primitiva.

Em poucas palavras: tem tudo para dar errado. Exceto, talvez, por um fato: nenhum dos dois homens costuma exercitar a autocomplacência. Em vez do entendimento quase piedoso que aproxima os personagens de “Miss Daisy”, aqui é uma relação não raro dura que se estabelece entre os dois homens.

É por ela que se conhecem e se reconhecem em suas diferenças. Pois Tony é um homem prático e Dr. Shirley por vezes lembra um Martin Luther King do piano (não esquecer que estamos no governo Kennedy, momento essencial da luta pela igualdade —ou alguma igualdade).

Tudo isso serve para nos situar na época e nas circunstâncias dos personagens, o que leva quase obrigatoriamente a um filme sobre conhecimento, autoconhecimento e entendimento.

Daí por diante, tudo depende muito da maneira como essa história banal de encontro entre contrários é conduzida. E, da primeira à cena final, Farrelly conduz a trama com uma sabedoria que deve muito ao seu trabalho na comédia. Vejamos: há um negro e um branco racista convivendo, durante a viagem de um pianista consciente da luta pela igualdade ao sul que faz do racismo uma bandeira.

E, no entanto, eis um filme que deriva não raro para a comédia dramática. Farrelly tira todo o peso que a convenção costuma atribuir a esse tipo de situação. Não faz da história uma plataforma da luta antirracista (ela não precisa disso, Trump basta).

Nada disso. A relação entre os dois produz por vezes um formidável humor. Não desses de rolar de rir, não é isso: um humor que vem de contrastes e afinações sutis (ver a cena de ambos num bar só para negros, no sul).

Tão sutis que até o final quase não nos damos conta de que o tema central, mais do que o racismo, mais do que a tolerância, é a solidão. Essa questão é levada quase sempre com um sorriso discreto, um sentido de tempo e da concisão que não se vê todos os dias, sem falar das luvas de pelica de Farrelly, que explora até o osso o talento (que parece maior, filme após filme) de Mortensen e acomoda Ali da melhor maneira possível.

Com um pouco menos de música sentimental nas sequências finais, seria melhor ainda. Como está, é um filme que surpreende pela paixão —seja aos seus personagens, seja ao cinema como forma de conhecimento e exercício da sensibilidade: algo meio raro num filme de grande audiência, nos dias que correm.

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