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'Não gosto de fantasia', diz criador da série 'Vikings'

Para Michael Hirst, mítica interessa apenas para dramatizar o real; inglês virá ao Brasil para fazer série sobre índios

Série

O ator Gustaf Skarsgård como o viking Floki em cena da quinta temporada da série Arnaldur Halldórsson/Divulgação

Dublin

A expansão continental dos vikings, povo que dominou territórios de leste a oeste da Europa durante a Idade Média, agora concentra-se numa área de algumas centenas de acres no condado de Wicklow, ao sul de Dublin.

Os arredores da capital irlandesa servem de cenário para a série "Vikings", drama histórico sobre as disputas e conquistas do povo nórdico --a segunda metade de sua quinta temporada, recém-lançada, é exibida no Brasil pela Fox.

Mas é com precisão histórica, de detalhes bordados do figurino ao carvalho esculpido no cenário, que a produção recria os palácios sérvios, os castelos bretões e Kattegat, o vilarejo no estreito entre a Dinamarca e a Suécia de onde sai o protagonista Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel) em busca de terras longínquas.

"Tudo aqui vem de pesquisas históricas", comenta o inglês Michael Hirst, criador da série, durante uma visita aos estúdios Ashford, onde parte do programa é gravada --há ainda locações em propriedades privadas adjacentes. 

Ele explica que Kattegat começou a primeira temporada com apenas três construções. E foi crescendo em tamanho e detalhes à medida que os vikings conquistavam novos territórios e enriqueciam.

Já os cenários sérvios são repletos de tapeçarias e lâmpadas asiáticas. E muitos corredores. "Se você está escrevendo uma história com muita conspiração, você constrói vários corredores", brinca ele.

Hirst, 66, ele próprio de origem acadêmica (formou-se na London School of Economics e depois estudou inglês e literatura americana na Universidade de Nottingham), sempre busca inspirações históricas para suas tramas, como fez na série "The Tudors", sobre o rei inglês Henrique 8º e seus turbulentos matrimônios.

Neste ano, ele também deve vir ao Brasil para iniciar a pesquisa de "Indigenous", série sobre povos indígenas da Amazônia que ele pretende lançar nos próximos anos.

No caso de "Vikings", Hirst parte de escritos épicos sobre o povo nórdico e descreve personagens e fatos reais. Ainda dá atenção às línguas, colocando em algumas cenas vernáculos já mortos, como nórdico, inglês e francês antigos.

"Pesquisamos sete línguas diferentes, e algumas precisaram ser rejuvenescidas, para terem uma lógica dentro dos diálogos, noutras vezes tivemos que entender como eram as pronúncias. Temos acadêmicos trabalhando nisso. Aparentemente eles brigam entre si para decidir como fazer."

Mas Hirst se dá a liberdade de inventar aqui e ali. "Foi minha ideia, por exemplo, dizer que os vikings se ofereciam para o sacrifício, achei que seria interessante para a história. Não sabemos ao certo, mas eu acho que na realidade eles apenas usavam escravos."

E permite-se um clima fantasioso quando fala do aspecto religioso. "Eu acho que eu caminho numa linha tênue, porque eu não gosto de fantasia. Nela, tudo pode acontecer. E, se tudo pode acontecer, então nada é significativo. Prefiro falar de situações reais."

O inglês, contudo, abre o primeiro episódio de sua série justamente com uma imagem de ar místico, a do deus Odin caminhando sobre um campo de batalha. 

"A religião era uma parte muito importante da vida dos vikings, guiava muita coisa da sociedade. Então isso não é fantasia, é o que eles acreditavam e viam. O que eu faço ali é dramatizar o que é real."

A crença teve peso não só para os vikings. Foi em parte o assunto que levou Hirst a criar a série. "Eu me interessava em mostrar esse choque entre culturas cristãs e pagãs. E como, no fim, a vitória do cristianismo apagou da história tantas coisas interessantes." 

O inglês elenca alguns "avanços" do povo nórdico para a época, como a liberdade sexual e a autonomia de mulheres, que podiam participar de batalhas e até pedir o divórcio.

O feminismo, por sinal, surge com força em algumas personagens, como Lagertha (Katheryn Winnick), mulher de Ragnar, ela própria uma guerreira e dominadora, e Torvi (Georgia Hirst, filha do criador), que se liberta do marido agressivo. "Queria que os desafios delas fossem assuntos contemporâneos, com que mulheres de hoje pudessem se relacionar", explica Hirtst.

De certo modo, comenta o ator dinamarquês Alex Høgh Andersen, que interpreta o sanguinolento Ivar, filho de Ragnar, a série tem ajudado a desmistificar muita coisa sobre os vikings, em especial a ideia de que esse seria um povo nefasto e despudorado.

"Quando comecei, eu me questionava se as pessoas se interessariam por uma série com tanta teologia", diz Hirst. "Mas você veja, na Comic Con [um dos maiores eventos de cultura pop e geek] a maioria das perguntas é sobre religião."

E Hirst parece ter acertado no tema. A série, que lançará a sexta temporada no segundo semestre, vem engrossando o sucesso e hoje é exibida em mais de 250 países. Ashford mesmo foi construído com o único intuito de abrigar a série e vem expandindo as dependências desde então.

(A decisão de gravar na Irlanda, algo comum em séries recentes, como "The Tudors", "Penny Dreadful", não se explica apenas pela extensa variedade da paisagem, mas muito também por um programa de incentivo fiscal que o país dá a produções audiovisuais --a subvenção chega a 30%).

Porém a precisão histórica, diz Hirst, não seria o mais complexo para manter a série. "Na prática, o mais difícil é colocar os barcos na água", brinca ele sobre as embarcações de cascos longilíneos, que ficam boiando numa piscina. "Eles não são muito estáveis."

A jornalista viajou a convite da MGM e da Fox Brasil

 

Vikings
Quintas, a partir das 22h, na Fox Premium. Disponível também na Fox Play

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