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Shakespeare me levou a 'X-Men' e Merlin, diz ator que fez professor Xavier

Patrick Stewart interpreta mago em 'O Menino que Queria Ser Rei', filme que faz releitura de Rei Arthur

Daniel Buarque
Londres

A história fantástica de um menino de 12 anos que se vê com a responsabilidade de reunir seus amigos para usar mágica e salvar a Inglaterra de um desfecho fatídico. 

Pode parecer mais uma fantasia sem sentido da indústria de entretenimento tomada por histórias de super-heróis, dragões, zumbis e bruxaria. Mas, por trás de “O Menino que Queria Ser Rei”, releitura da lenda do Rei Arthur que volta aos cinemas com uma abordagem mais atual, também pode haver uma analogia para grandes problemas do mundo contemporâneo.

É o que afirma Patrick Stewart, 78, veterano ator britânico que interpreta o mago Merlin no filme de Joe Cornish.

“A fantasia tem um poder particular, a capacidade de combinar a imaginação com o mundo real em torno de nós”, disse Stewart à Folha, durante entrevista em um hotel na zona oeste de Londres.

Para ele, a referência imediata é em relação à decisão política sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. “Não acho que havia a intenção específica de fazer deste filme uma analogia para alguma questão contemporânea, mas o que Arthur e os cavaleiros da távola redonda estavam enfrentando não era muito diferente do que estamos vendo no Reino Unido hoje, com toda essa controvérsia do brexit”, disse.

"Estamos em sérios problemas, e todos os dias há relatos de pesquisas independentes dizendo que as coisas só vão piorar com a saída do bloco. Então algo precisa ser feito. É preciso virar o jogo”, completou, dizendo torcer para que a produção extrapole a ficção e ajude as pessoas a refletirem também sobre o futuro do mundo real.

Mensagens políticas à parte, Stewart diz que o filme é claramente voltado para o entretenimento, com aventura e humor. “Quatro crianças que se juntam e se tornam um time para atingir um resultado positivo para o país. Este é provavelmente o ponto mais importante do filme”, disse.

O Merlin que ele interpreta entra nesse clima. “É um indivíduo, excêntrico, bem humorado, agradável, mas também muito severo. E está determinado a ver essas crianças alcançando seus objetivos. Ajudo a resolverem o que parece uma tarefa impossível, que seria, como criança, salvar a sociedade do perigo que se aproxima. Um filme bem atual, eu diria.”

Apesar da sua formação em drama clássico, com ênfase na obra do britânico William Shakespeare, Stewart tem se consolidado desde os anos 1980 como um dos nomes mais importantes em atuações obras de ficção e fantasia em Hollywood. 

Ele foi o capitão Jean-Luc Picard em “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração” e o professor Charles Xavier na série de longas da franquia “X-Men”. Além disso, também participou de uma outra versão da lenda de Arthur no cinema, em “Excalibur, a Espada do Poder”, de 1980.

Segundo o ator, essa relação se dá porque ele vê a fantasia como um tema complexo, que vai além da superfície e que revela algo de importante, ensinando sobre diferentes aspectos da realidade. 

“Há sempre uma razão por trás dessas histórias. Mesmo alguns dos filmes e séries mais fantásticos dos dias de hoje contam com um conteúdo importante e sério, que vai além desse lado fantástico”, acredita.

Esse aspecto subliminar da fantasia é o que fez com que Stewart e uma geração de atores britânicos de formação clássica, caso de Nicol Williamson, Helen Mirren e Ian McKellen, ajudasse a abrir o caminho para que Hollywood atualmente aceitasse com tanta naturalidade que atores considerados mais sérios participassem de filmes que podem parecer “bobos” para os críticos e especialistas.

“Há um aspecto maior do que a própria vida em muito do drama clássico. Hamlet e Macbeth são uma forma ampliada da vida real. Nossa transição do palco shakespeariano para o cinema, gravando fantasia e ficção científica, foi muito fácil”, explicou Stewart.

Mas o processo de aceitação não foi tão fácil —ele afirma que críticos e jornalistas chegaram a questionar se não estaria se rebaixando ao participar de “Jornada nas Estrelas”,  por exemplo, tipo de pergunta que o fazia dar respostas mais irritadas. 

“Sentei em tantos tronos da Inglaterra em peças de Shakespeare. Tudo aquilo foi só uma preparação para sentar na cadeira de capitão da Enterprise. E é verdade. Foi a preparação perfeita para este tipo de papel”, disse.

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