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Cinema

Cinema que só não é mais difundido por causa do racismo ganha mostra no IMS

Seleção destaca cineastas negros do movimento L.A. Rebellion, como Haile Gerima e Julie Dash

Sérgio Alpendre
São Paulo

Eis uma história pouco contada entre as muitas histórias do cinema: a do movimento chamado L.A. Rebellion, que congregava um punhado de jovens e talentosos realizadores negros para um cinema combativo.

Cineastas como Julie Dash, Haile Gerima ou Charles Burnett, entre muitos outros, realizaram, nos anos 1970 e 1980, filmes sublimes e repletos de invenções formais que merecem muito mais do que o normalmente reservado nas páginas dos livros sobre cinema.

mulher olhando pro lado e homem gritando com ela
Cena do filme 'Abençoe Seus Pequeninos Corações' (1984), de Billy Woodberry - Divulgação

Esse esquecimento começou a ser combatido no mundo todo durante esta década, com matérias em revistas de prestígio como a inglesa Sight and Sound e ciclos em festivais importantes.

No Brasil, chegou com força em 2017, quando o festival recifense Janela Internacional de Cinema dedicou uma ampla mostra com filmes desses cineastas. Parte dessa mostra chega nesta terça (19) ao IMS de São Paulo.

Serão cinco dias e 14 filmes (entre curtas, médias e longas), exibidos em 16 mm ou DCP. Oportunidade única para conhecer um cinema injustamente relegado a um segundo plano.

Não se trata apenas de compensação histórica, de dar voz àqueles que normalmente são calados. Trata-se de dar espaço a um cinema que só não é mais difundido e estudado por causa do racismo que corre subterraneamente nas sociedades, subindo, por vezes, à superfície, geralmente de forma violenta.

Na ausência dos longas do genial Charles Burnett, podemos ver dois de seus belos curtas: “Um Bocado de Amigos” (1969) e “O Cavalo” (1972).

Outros curtas e médias de interesse são “A Bolsa” (1980), de Billy Woodberry, “Seus Filhos Voltam Para Você” (1979), de Alile Sharon Larkin, “Ilusões” (1982), de Julie Dash, e, principalmente, “Filha da Resistência” (1972), de Haile Gerima.

Há também “Dando um Rolê” (1977), longa de estreia de Larry Clark (não confundir com o diretor homônimo, que assinou “Kids” e “Ken Park”). Aqui veremos o Clark mais interessante, num filme deliciosamente contaminado pelo jazz. É outro filme de conclusão de curso da UCLA.

Outro longa que será exibido é “Abençoe Seus Pequeninos Corações” (1983), de Billy Woodberry, um trabalho de conclusão de mestrado da UCLA. Tem roteiro de Charles Burnett, sobre um casal com dificuldades financeiras para criar seus filhos.

O mais curioso da seleção é “Bem-vindo de Volta, Irmão Charles” (1975), de Jamaa Fanaka, espécie de “blaxploitation” virado do avesso, uma crítica ao movimento mais popular do cinema negro americano, visto pelos jovens rebeldes da UCLA como mais nocivo do que benéfico à luta contra o racismo.

Mas o melhor entre os ótimos filmes da mostra, aquele que não deve ser perdido de maneira alguma, é o primeiro longa americano de Haile Gerima: o inesquecível “Bush Mama” (1975-1979).

Cena do filme 'Bush Mama', de Haile Gerima, que foi gravado em 1975 e lançado em 1979
Cena do filme 'Bush Mama', de Haile Gerima, que foi gravado em 1975 e lançado em 1979 - Divulgação

Nativo da Etiópia, Gerima foi para os EUA em 1967, formou-se em cinema na UCLA, entregando, como trabalho final de mestrado, esta pérola que é muito mais do que o melhor filme universitário de todos os tempos.

“Bush Mama” é um grito de dor, um lancinante e inventivo drama sobre Dorothy, mulher que batalha para cuidar da filha e de uma segunda gravidez enquanto o marido está na prisão e há uma ameaça de corte de subsídios se ela não fizer um aborto. Não se esquece de um filme como esse.

L.A. Rebellion
De 19 a 23 de fevereiro, no IMS, na av. Paulista, 2.424.  Ingr.: R$ 8. Abertura nesta terça (19) com ‘Bush Mama’, às 19h30, seguida por fala dos curadores. Veja programação completa

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