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Artes Cênicas

Com crianças no elenco, Elisa Ohtake traz 'Hamlet' para o presente

Tragédia shakespeariana é traduzida pelo olhar de cinco pré-adolescentes em 'Peça para Adultos Feita por Crianças'

Nelson de Sá

Peça para Adultos Feita por Crianças

  • Quando Dom., às 19h. Até 12/5
  • Onde Espaço Parlapatões, pça. Franklin Roosevelt, 158
  • Preço R$ 30
  • Classificação 10 anos

A diretora Elisa Ohtake evita usar o título, mas é “Hamlet”. De uma performance que apresenta a tragédia shakespeariana traduzida pelo olhar de cinco pré-adolescentes, preparados e encenados por Ohtake. Uma peça sobre o que entendem e como processam Hamlet.

Como avisa um deles na primeira cena, “esta não será uma peça para adultos feita por crianças, mas, sim, uma peça para adultos feita por adultos”, acrescentando, com ironia inesperada: “Por favor, vamos todos lidar com isso sem desespero”. O maior choque, desde logo, é pela profundidade com que entram nos versos e no papel.

Muito do que está no palco, obviamente, é armado pela direção. Começa pela apresentação formal de uma proposta de abordagem do personagem, não mais como o anúncio do homem moderno, no centro do universo, mas do transumano, que se quer integrado a todos os seres vivos e à tecnologia.

É uma encenação com ideário desenvolvido e claro, mas o que importa mais é o que a direção tira das crianças. Como ela fez com que adentrassem a tragédia e encontrassem a si mesmas —e a reescrevessem, como Shakespeare fazia com as histórias, inclusive aquela do príncipe Amleth.

Os cinco atores representam Hamlet de maneira reveladora, exposta.

E se trata de fato, como é mencionado a certa altura, de um grupo de teatro, com atores treinados. Não se sabe se vão seguir carreira ou nem sequer se vão pensar, passados alguns anos, em Shakespeare ou no teatro. Mas os cinco impressionam pela integração como grupo e pelas atuações individuais, pela expressão que alcançam.

É um feito que se deve em grande parte à diretora, mas que também reflete a persistência e disposição de cada um dos jovens atores, Davi Hamer, Felipe Bisetto, Joana Fix Arantes, Michel Felberg e Vitória Reich. Ao longo de uma hora e meia, eles se abrem, por exemplo, em cartas ao personagem: “Como você, eu tive a minha paz esmagada. Hamlet, eu não aguento acordar todo dia e ir para o pior lugar da minha vida”.

Os cinco chegaram a tanto depois de um ano e meio de estudos e ensaios, parte de um processo do qual eles saem —aparentemente— com uma consciência individual que a maioria dos adultos jamais vai alcançar, inclusive aqueles da plateia.

A entrada de Paulo César Pereio para o “ser ou não ser”, depois dos aplausos, contrasta e completa a performance. Enquanto seus colegas têm dez, 12 anos, ele soma 78 e recorda pouco —e aparenta entender menos ainda— do solilóquio famoso de Shakespeare, mas eles se integram.

O que os primeiros têm de sobra, casos da memória, da entrega física e do amor à brincadeira, Pereio-Hamlet tem pouco. Mas é aceito e abraçado por eles, sem negar diferenças, pelo contrário. Como sendo, ele também, parte do transumano.

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