Reforma de projeto de Paulo Mendes da Rocha gera debate ético e estético

Arquiteto adapta loja Forma e é criticado por escolhas e por não procurar autor original

 Fachada da loja de cortinas e persianas Uniflex, na avenida Cidade Jardim; reforma da antiga loja de móveis Forma, projeto de Paulo Mendes da Rocha, feita por Aldo Uribinati, gerou polêmica entre arquitetos sobretudo pelo uso de vermelho vivo na fachada, que era de concreto aparente sobre a grande vitrine onde ficavam expostas peças de design, no projeto original

Antiga loja Forma, de móveis de design, projeto de Paulo Mendes da Rocha adaptado por Aldo Urbinati para ser Uniflex Eduardo Knapp/Folhapress

Francesca Angiolillo
São Paulo

Para quem entra em velocidade no túnel Max Feffer, na avenida Cidade Jardim, o que se vê logo à esquerda é um borrão vermelho. Para alguns, contudo, os contornos rubros definem claramente uma heresia.

Em 2 de fevereiro, uma foto numa rede social mostrava placas quadradas vermelhas sendo coladas sobre uma fachada de concreto. “A loja que já foi da Forma passa por mudanças radicais. Alguém está acompanhando?”, perguntava na postagem Renato Anelli.

A maioria das mais de 120 respostas foram comentários indignados. Como e quem teria tido a ousadia?

Àquela altura, a loja não estava aberta. Portanto o debate girou em torno de um motivo principal: teria Paulo Mendes da Rocha, o autor do projeto original, atuante aos 90 anos, sido chamado para o projeto? Ou ao menos consultado?

A loja erguida em 1987 para a marca de móveis de design Forma é um projeto aclamado como uma síntese dos preceitos do ganhador do Pritzker. Após anos fechada, ressurgiu neste mês como Uniflex, de persianas e cortinas.

A adaptação foi capitaneada por Aldo Urbinati, 42, arquiteto formado no mesmo Mackenzie de Paulo Mendes —que, não, ele não consultou.

 

Na opinião de Anelli, 59, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP em São Carlos, a loja foi jogada num impasse pelo túnel.

A nova situação limitou o efeito outdoor de sua fachada franca, com o nome gigante e a grande vitrine, que mostrava os móveis para quem passava de carro por uma avenida que deixou de ser refinada.

“Nesse contexto, relevo muito a crítica estética”, diz. Melhor, afirma, que a loja reabra.

Para Anelli, Urbinati “poderia ter tido estratégia para fazer uma intervenção mais respeitosa”. “Mas não acho que ele cometeu nenhum crime.”

Raquel Schenkman, 35, diz que o que lhe chamou a atenção no post de Anelli foi “que o debate era semelhante ao que acontece, documentado, em processos públicos quando um bem é tombado”.

A arquiteta trabalha no Departamento do Patrimônio Histórico. Ela defende que nem tudo precisa ser protegido no papel —a loja Forma nunca foi indicada para tombamento, lembra; mas a sociedade pode se unir para proteger uma obra importante.

Urbinati afirma que “queria uma espécie de embate franco” entre os projetos. “Por isso não liguei para Paulo Mendes”, diz ao receber a Folha na loja.

Outras explicações ele traz nas 188 páginas de “Mea Culpa”, livro autoeditado em forma de diálogo no qual mescla memórias e referências à literatura e à história e à teoria da arquitetura, a fim de expor sua concepção para o projeto.

Urbinati evoca a noção de Bernard Tschumi de que “o vermelho não é uma cor”, título do livro em que o arquiteto suíço repassa sua obra, mas uma abstração ou uma pontuação.

Tudo no novo espaço é cinza e branco ou, claro, vermelho: cinza é o que está à venda; branco, a estrutura original; vermelho, em metal pintado com tinta automotiva brilhante, o que Urbinati inseriu.

O que Urbinati inseriu: salas de vidro; ; mapotecas para mostruários de produtoscaixas de luz que imitam janelas, com luz programada para emular as variações do dia —projeto do arquiteto luminotécnico Carlos Fortes para expor as cortinas à venda.

Urbinati diz ter querido manter a fluidez do espaço com os aquários. Para Maria Isabel Villac, 64, professora no de projeto e teoria do projeto no Mackenzie, isso não se deu.

Na opinião de Villac, que se doutorou com uma tese sobre Paulo Mendes e visitou a loja, “no interior o espaço assume uma especialização” e “abandona a fluidez e a multiplicidade de estímulos”. Já no exterior, com o vermelho, “a caixa, que pairava sobre o lote, perde leveza, cria raízes”.

Na fachada, Urbinati reproduziu o traçado do Templo Malatestiano, a catedral de Rimini —fruto de uma reforma feita por Leon Battista Alberti no século 15. Homenagem, diz Urbinati, ao gênio de Paulo Mendes da Rocha, que está na outra ponta do arco inaugurado pelo mestre renascentista.

Para Pedro Mendes da Rocha, 56, filho de Paulo Mendes e, como o pai, arquiteto, melhor seria um telefonema.

“Entre nós, profissionais, deveria prevalecer essa ética de respeitar aquilo que, de consenso, é um excelente exemplar de arquitetura.”

A Folha procurou Paulo Mendes da Rocha. Ele não quis se pronunciar.

Debate e lançamento do livro 'Mea Culpa'

  • Quando Ter (19), às 19h
  • Onde Casa Plana (r. Fradique Coutinho, 1.139)
  • Preço Grátis (livro: R$ 30)
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