Kamasi Washington é rara celebridade no jazz e refuta a ideia de crise do gênero

Parceiro de rapper Kendrick Lamar, saxofonista apresenta som militante e de vanguarda em shows no Brasil, em março

São Paulo

Como transmitir emoção e sentido sem recorrer às palavras, usando apenas os recursos do jazz instrumental de vanguarda?

O saxofonista Kamasi Washington poderia dar aulas sobre o tema —talvez já o faça em gravações e shows como os que apresentará no mês que vem no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em Curitiba e em São Paulo.

“A linguagem falada é apenas uma entre as modalidades de comunicação. É possível dialogar por olhares, gestos, pela conexão direta com os sentimentos; meu público entende minha mensagem e no que acredito”, diz Kamasi.

As crenças do músico americano de 38 anos ficam claras em sua música, da qual emanam doses fartas de ideologia.

O som de Kamasi é “popular, político e inclassificável”, na precisa definição do jornal The New York Times, e fez dele algo que há muito o jazz não produz: uma celebridade.

Ao brilhar, o saxofonista acaba lustrando também o próprio gênero jazzista, hoje e sempre desenganado por especialistas e colocado à beira da morte, algo que ele refuta com certa indignação.

“As pessoas falam com saudosismo do [John] Coltrane dos anos 1950, mas, naquela época, já se questionava se o jazz existia, se era comercialmente viável... A verdade é que música nunca morre. Sinto que vivemos um bom momento, as plateias estão abertas.”

Foi assim, tocando e falando na lata, que o músico se tornou um dos principais nomes da cena jazzista em Los Angeles —inspiração do diretor Damien Chazelle no filme “La La Land: Cantando Estações”.

Uma reputação que começou a ser construída em colaborações com gigantes, como os veteranos Herbie Hancock e Stanley Clarke, cujas bênçãos lhe serviram de chancela.

“Toda vez que vejo o Herbie tenho vontade de me apresentar de novo, tipo ‘Oi, senhor Hancock, eu sou o Kamasi’. Tocar com esses gênios parece um sonho”, diz o músico, emendando uma gargalhada.

Outro aspecto essencial para compreendê-lo é a disposição em dialogar com outros gêneros. Kamasi se notabilizou por participar de discos incensados de artistas como Lauryn Hill, Snoop Dogg e o rapper Kendrick Lamar, de cujos elogiados álbuns “To Pimp a Butterfly” (2015) e “Damn” (2017) participou.

Em sua lavra, o músico mescla despudoradamente hip-hop, funk, soul, eletrônica e música clássica, adornando as fundações jazzistas com doses fartas de militância afro. 

Suas referências extrapolam os manuais: Jimi Hendrix e Bob Marley e The Wailers são tão importantes quanto Miles Davis ou Wayne Shorter.

Romper fronteiras não é bem uma novidade no jazz; expoentes que o precederam, como o próprio Miles, que digeriu o rock psicodélico, e John McLaughlin, que fundiu o jazz à música indiana, tornaram-se notórios por desbravar diferentes caminhos.

Mas chama a atenção a fluidez com que Kamasi conjuga suas diferenças: o músico crê que as fronteiras entre os gêneros são mais e mais sutis.

“Hip-hop é jazz, soul é jazz, rock é jazz. A música é como uma grande árvore que segue crescendo; ainda que haja galhos distintos, é tudo parte de um mesmo organismo.”

Sua carreira começou em 2001, participando de gravações de big bands e outros artistas. A estreia sob seu próprio nome veio apenas em 2015, com o disco “The Epic”.

O primeiro álbum foi bem recebido pela crítica musical —entrou nas listas de melhores do ano do jornal inglês Guardian e do site americano Pitchfork— e rendeu a ele epítetos grandiosos, como o de “maior acontecimento do jazz em anos, talvez décadas”.

A repercussão impulsionou sua circulação por festivais como Coachella, nos EUA, Glastonbury, na Inglaterra, e Primavera Sound, na Espanha.

Também o destacou gravar com um ícone pop como Lamar —um dos nomes fortes do rap, ao lado de Drake, Jay-Z e Kanye West—, o que Kamasi credita a um pendor natural pela miscigenação sonora.
Sobrevieram os EPs “Harmony of Difference” (2017) e “The Choice” (2018) e o disco “Heaven and Earth” (2018). 

Igualmente incensado, o novo repertório será a base dos shows promovidos pelo festival Queremos! no mês que vem —em São Paulo, a abertura será do cantor Giovani Cidreira, e, no Rio, será do pianista Jonathan Ferr.

Não será a estreia de Kamasi no país. Ele já veio para cá algumas vezes, acompanhando o lendário baixista Stanley Clarke, e também com show sob seu nome em 2017, no festival Jazz All Nights, no Rio.

“As pessoas são carinhosas e há tantos músicos maravilhosos tocando ao ar livre ou em festas; parece que aí se faz música o tempo inteiro”, diz o saxofonista, fã do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, com quem sonha tocar, assim como com Stevie Wonder e o grupo Radiohead.

Falando de Los Angeles, o músico —solteiro “por ora” e sem filhos— está cheio de planos: segue compondo e se dedica a escrever uma história em quadrinhos, ao encontro do apreço por artistas como Alan Moore, de “Watchmen”, e embora não saiba desenhar —um amigo o ajuda nessa parte da empreitada, cujo título até aqui é “The Dark”.

Ele vem ciente da situação política do Brasil e cheio de opiniões a respeito dos porquês da recente ascensão de governantes conservadores em todo o mundo, na esteira da eleição do presidente dos EUA, Donald Trump, em 2016.

“Acho interessante que esses líderes não pareçam refletir os sentimentos das massas com quem me encontro. Estamos na encruzilhada entre o esclarecimento e a ignorância. Isso assusta, mas temos de dividir o que sabemos na esperança de que as pessoas sejam naturalmente boas e errem por falta de informações.”

À pergunta sobre que música o artista tocaria na Casa Branca caso fosse convidado por Trump e aceitasse a empreitada, a resposta é mais uma gargalhada: “‘Fists of Fury’, com certeza”, ele responde, citando sua canção cujo título se traduz em português como “punhos de fúria”.


Kamasi Washington
No dia 23/3, às 21h, no Circo Voador, r. dos Arcos, Rio de Janeiro. Ingr.: R$ 160 a R$ 320. Em 24/3, a partir das 18h, na Ópera de Arame - Parque das Pedreiras - r. João Gava Abranches, 970, Curitiba (PR). Ingr.: R$ 80 a R$ 280. Em 26/3, às 21h, no Opinião, r. José do Patrocínio, 834, Porto Alegre. Ingr.: R$ 80 a R$ 140. Em 27/3, às 21h, na Audio, av. Francisco Matarazzo, 694, São Paulo. Ingr.: R$ 120 a R$ 280. Ingressos à venda pelos sites queremos.com.br e www.kamasiwhashingtoncwb.eventbrite.com.br (Curitiba). 18 anos. 

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