AT&T Warner ameaça tirar HBO e CNN da TV paga

Grupo pretende lançar streaming até o fim do ano, para concorrer com Netflix, mas aprovação da fusão no Brasil é obstáculo

Nelson de Sá
São Paulo

 À espera de uma decisão de dois reguladores brasileiros, Anatel e Ancine, agora prevista apenas para o segundo semestre, sobre a aquisição em nível global da WarnerMedia, a AT&T já fala abertamente em tirar canais como HBO, CNN e outros da TV paga brasileira.

"Seja HBO, seja Turner [CNN, TNT], se a decisão for que a AT&T não pode ser dona dessas empresas e ao mesmo tempo da [operadora] Sky, uma das alternativas seria deixar de vender os conteúdos em TV paga e só fazer transmissões de streaming online", diz Michael Hartman, vice-presidente sênior da AT&T. "E se dedicar a isso."
 


A AT&T anunciou em 2016 a compra da WarnerMedia, antes conhecida como Time Warner, e venceu os últimos obstáculos regulatórios nos Estados Unidos em junho do ano passado. O propósito é lançar um serviço mundial de streaming, semelhante a Netflix e Amazon Prime Video, até o final deste ano.

O mercado brasileiro é o maior empecilho, segundo o executivo. "Todo mundo está fazendo investimentos importantes", diz, citando outras gigantes de telecomunicações e tecnologia. "Só no Brasil estamos enfrentando uma situação de dúvida, que está freando os investimentos."

A AT&T WarnerMedia já fechou os canais Esporte Interativo para responder à chamada Lei do SeAC (Serviço de Acesso Condicionado) ou da TV paga, que veda que o mesmo grupo detenha a operação e a produção de conteúdo no setor.

"Parte da lógica" para encerrar as operações do EI, confirma o executivo, "era a necessidade de adequar a operação desses canais, tomando em conta as necessidades da lei, porque provavelmente não poderiam ser produzidos no Brasil".

Nos casos da HBO e dos canais da Turner, a AT&T defende que, como essas unidades têm suas sedes no exterior e não produzem diretamente no país, não há impedimento para o grupo mantê-los junto com a Sky.

A expectativa agora é que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) tome uma decisão sobre isso daqui a quatro meses e que a Ancine (Agência Nacional do Cinema, que regula audiovisual de maneira geral) divulgue a sua até o fim do ano.

Mas o tempo está passando e Hartman não esconde a contrariedade. "Fora do tema pontual, da regulamentação e como ela vai ser aplicada, estamos enfrentando" concorrência crescente, afirmou Hartman, na entrevista realizada por teleconferência.

Cita desde o lançamento do serviço de streaming Apple+, na semana passada, até a compra da britânica BSkyB pela Comcast, empresa de telecomunicações concorrente da AT&T nos EUA,  para enfatizar a aceleração das ações no setor, global e nacionalmente. Neste último caso, o concorrente é o Grupo Globo, com a Globo Play.

"Grandes empresas têm grande parte de sua estratégia orientada a buscar formas de entregar novos conteúdos audiovisuais para os consumidores", resume ele. "Todo mundo está tentando ver quando e como vai reorientar o modelo de negócio."

O país estaria na contramão, não só se fechando para os investimentos da AT&T, mas de outras gigantes internacionais, com riscos para a competição e para a oferta de alternativas ao consumidor brasileiro.

"É uma pena que no Brasil o discurso não vá para isso, para o interesse do consumidor", diz ele, "e sim para uma análise ultrapassada e desnecessária, de aplicação de uma lei fundamentada num conceito de mercado que já não existe".

No entender do executivo, que atua diretamente no conselho jurídico da empresa americana, considerada a maior em telecomunicações no mundo, "isso manda um sinal para todas no setor", contra a atuação no país.

Questionado se a AT&T poderia chegar ao limite de seguir outras multinacionais que têm deixado o mercado brasileiro, como o laboratório Roche, Hartman respondeu: "A AT&T só vai desistir do mercado se for forçada a fazê-lo". 

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