Ciência e magia se misturam em individual de Felippe Moraes

Mostra apresenta oito obras participativas para refletir sobre natureza do som

Clara Balbi
São Paulo

"Solfejo", individual que Felippe Moraes inaugura nesta terça (2) no Centro Cultural Fiesp, é sobre o som. A começar pelo título: solfejo é o exercício de cantar uma partitura reproduzida no papel.

Mas, sem alto-falantes, a sonoridade se manifesta de forma sutil na exposição. Os oito trabalhos expostos ora apresentam notas isoladas, produzidas pela passagem do ar ou pelos próprios visitantes, ora acenam a melodias por meio do cheiro (a instalação olfativa "Tanto Mar"), de textos ou de imagens.

É o caso da série fotográfica que dá nome à individual, de 2014. Em preto e branco, ela retrata duas mãos. Em cada imagem, o dedo indicador da mão direita determina pontos da palma esquerda.

As fotos registram uma técnica de representação de notas musicais conhecida como mão guidoniana, inventada pelo regente italiano Guido d'Arezzo na Idade Média. Na época, a música ainda não tinha representação gráfica.

"É uma forma de cantar em silêncio", diz Moraes sobre a série.

A reprodução de experimentos de campos como a música e a física é presente em quase todas as obras que integram a mostra.

Um deles, exibido na corte napoleônica para provar a existência de diferentes frequências sonoras, é a base das fotografias de "Desenho Sonoro". Nelas, grãos de areia formam composições variadas em uma placa a depender da frequência das ondas sonoras –de 97 Hz a 1228 Hz –a que são submetidos.

Outro, do vídeo "Harmonice Mundi", realizado em uma residência no Irã em 2017, músicos interpretam uma ideia do astrônomo alemão Johannes Kepler no século 17. O teste  busca demonstrar a trajetória das órbitas percorridas pelos planetas traduzindo-as melodicamente. Quanto mais rápido é o astro, mais agudo o som; quanto mais lento, mais grave.

Já em ambas as séries "Tubos Sonoros" e "Intervalo Harmônico", a passagem do ar por canos de aço produz notas de dó a dó a depender de seu comprimento.

"Gosto da ideia de que os trabalhos revelam uma espécie de ordem invisível que, apesar de invisível, domina o universo", afirma Moraes. Aos 30 anos, ele apresentou individuais no MAC-Niterói (Museu de Arte Contemporânea) e na Caixa Cultural de Fortaleza.

Com expografia pensada para a interação do público (para ouvir os assobios dos canos de aço, por exemplo, é preciso subir em arquibancadas adaptadas, ou deitar em camas), um dos trabalhos se destaca por depender exclusivamente da participação dos visitantes.

É o inédito "Composição Aleatória". A instalação convida os visitantes a deitarem-se em oito redes que, quando movimentadas, tocam sinos. O resultado é uma espécie de canção de autoria conjunta, sobre a qual os indivíduos têm pouca ou nenhuma .

É nessa interação com o público, aliás, que Felippe enxerga um tom político dos trabalhos.

"Aqui, tenho a oportunidade de estar na avenida Paulista, que foi palco de manifestações políticas históricas no ano passado", diz em frente ao neon luminoso com a frase "Atenção para o Refrão" que dá as boas-vindas à mostra.

O fragmento da letra de "Divino Maravilhoso", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, é seguido dos versos "É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte". "Acho que, em tempos obscuros para a cultura, o artista tem o dever de colocar o dedo na ferida", diz Moraes.

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