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Estilista baiano renega rótulos e injeta padrão millennial na moda

Vitorino Campos peita o mercado e assumiu a grife milionária Animale

O designer Vitorino Campos, 31, que assumiu a grife Animale no Copacabana Palace no Rio de Janeiro
O designer Vitorino Campos, 31, que assumiu a grife Animale no Copacabana Palace no Rio de Janeiro - Raquel Cunha/Folhapress
 
Pedro Diniz
Rio de Janeiro

Quando tinha apenas 16 anos, Vitorino Campos foi a um shopping de sua cidade natal, Feira de Santana (BA), procurar um ponto para a loja multimarcas que planejava abrir. Sem um real no bolso e a autorização da mãe, reuniu-se com o gerente de vendas do centro comercial.

Quinze anos depois, já estilista de uma das grifes mais robustas do país, a carioca Animale, ele passou a ter nas mãos 64 pontos espalhados pelo Brasil e um faturamento de R$ 580 milhões por ano para fazer crescer desde que assumiu a direção criativa da marca, no ano passado.

Da geração de designers que ascendeu no início desta década em eventos de desfiles como Casa de Criadores e São Paulo Fashion Week, Campos, aos 31 anos, cinco deles trabalhando na equipe de estilo da etiqueta, já pode ser considerado o mais bem-sucedido deles. Não há no país nenhum nome tão jovem no comando de uma marca desse porte.

Ainda que a renovação no quadro de estilistas à frente de grifes internacionais esteja de vento em popa no hemisfério Norte, as marcas nacionais com poder de difusão ainda têm receio de dar a faca e o queijo para a geração millennial.

“Muita gente dizia que eu era muito novo, que não ia dar conta de uma grife como a Animale. Tenho meus problemas de ansiedade, mas muito do que falam da minha geração é bobagem”, diz o estilita.

Sua contratação acendeu na moda brasileira um alerta de que é preciso renovar. Grifes do grupo Restoque, como John John e Le Lis Blanc, e do Inbrands, da Ellus e Bobstore, arriscaram contratar sangue novo para cargos de liderança.

No caso de Campos, a mudança recente do posto de estilista de desfile para diretor das coleções é acompanhada por um plano de reformulação que será posto em prática nos próximos anos.

Estão previstos o lançamento de uma linha de jeans e trocas no logo da grife, na arquitetura das lojas, no estilo, agora mais alinhado à cultura jovem, e, segundo a sócia-fundadora da Animale, Cláudia Jatahy, um retorno ao risco. “Porque na moda, se não arriscamos, morremos”, diz. 

O primeiro passo concreto da mudança foi realizar, em parceria com o diretor de imagem da marca, Luís Fiod, um megadesfile para quase mil pessoas no Museu de Arte Moderna do Rio, no início do mês, abrindo, ainda que não oficialmente, as apresentações de verão 2020 no Brasil.

Artistas espanhóis como Salvador Dalí, Joan Miró e Antonio Gaudí inspiraram a coleção de cores vibrantes, minissaias, casacos com estampa de cobra e bordados metálicos que lembram os arabescos de Sevilha.

Das projeções de luz de boate no concreto armado do MAM até o time de modelos brasileiras mais quentes do momento, como Ari Westphal e Isis Bataglia, todo o desfile foi embebido do aspecto sensual dos cortes da Animale — e também com um reconhecível viés internacional da moda de Vitorino Campos.

Um estilo calcado no streetwear que muitas vezes lhe rendeu críticas por emular tendências internacionais e preterir a imagem de moda brasileira, algo que ele refuta.

“Penso no Brasil e para o Brasil. Se a gente viaja para o Vietnã e traz uma estampa, aplica aquilo num produto adaptado para a brasileira. E quanto às semelhanças com outras marcas, existe a cópia e existe a peça hit do momento. Se um ombro marcado de uma marca está vendendo, tenho de atender ao desejo da cliente e colocá-lo na loja do nosso jeito”, afirma.

Por isso, ainda que carregue o selo de grife carioca, não há nada tropicalizado demais no estilo da Animale. 

O próprio estilista nega rótulos de origem. Na foto para a reportagem, feita no salão do icônico Copacabana Palace, preferiu adotar o habitual uniforme preto, etéreo, a ceder ao imaginário estampado e colorido vendido pelos designers locais. 

“Em nossa moda não pode mais caber divisões sobre o que é paulista, carioca ou nordestino. Somos brasileiros.”

A forma menos romantizada de enxergar o papel do criador de moda, que antes se imaginava ser livre para fazer o que quiser, lhe garante estofo para testar sua tesoura. Não é a partir de seus desejos que cria, mas de análises diárias de relatórios de vendas, que apontam o caminho das pedras e, em cima dele, criar novidades.

A julgar pela trajetória meteórica, o olho para o que dá certo parece afiado. 

Aquela loja que planejou abrir aos 16, na Bahia, deu certo. Depois, em 2007, assinou uma coleção de acessórios, e, no ano seguinte, já fazia o primeiro desfile, na casa da avó, da então embrionária grife Vitorino Campos.

Em 2010 entrou para a programação do Dragão Fashion, semana de moda autoral no Ceará e, em 2012, pulou para a São Paulo Fashion Week, de onde só saiu quando foi contratado pela Animale. 

Colheu os louros quando ganhou o prêmio de estilista do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte, em 2016, e viu seu nome na lista de promessas da revista Vogue americana. 

Mas o bônus veio com um ônus oneroso. A Animale padeceu, nos últimos cinco anos, de acusações de apropriação cultural, racismo em loja e, mais recentemente, de contratar confecções que mantêm trabalho escravo. Caiu como um misto de balde de água fria e choque de realidade.

“Não há desculpa que justifique nossos erros, mas a gente passa a olhar todos os processos com muito mais cuidado, analisando o que escapou. Claro que tudo isso me abalou, mas também me fez pensar que estamos num momento de transformação da moda, de rever todas as nossas práticas. Minha geração tem questões para lidar e mudar.”

O jornalista viajou a convite do grupo Soma

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