Pitty ensaia um retorno à Bahia em seu disco mais livre até o momento

Com BaianaSystem e Larissa Luz, 'Matriz' traz a cantora investigando as próprias origens

São Paulo

São Paulo “Por que lançar um disco? Quem ouve um disco inteiro hoje?” Esse questionamento sobre a validade do formato tradicional de álbum na atual indústria da música paralisou Pitty por quase um ano.

Quando começou a criar “Matriz”, seu álbum recém-lançado, a cantora estava numa espécie de limbo. Havia voltado aos palcos depois de um período dedicado a cuidar da filha Madalena, hoje com dois anos, e experimentava com o rap e o dub nos singles “Contramão” e “Te Conecta”, ambos do ano passado.

A cantora Pitty, que lança o disco 'Matriz'
A cantora Pitty, que lança o disco 'Matriz' - Otávio Sousa/Divulgação

O impulso de compor voltou quando Pitty decidiu investigar o próprio passado.

“Como essa menina foi parar em um quarto em Salvador, com um violão de náilon, achando que pode fazer um som?”, ela pergunta sobre o período de criação das canções que acabariam em “Admirável Chip Novo”, álbum de 2003 com singles (“Máscara”, “Equalize”, a faixa-título, “Teto de Vidro”, “Semana Que Vem”) que dominaram o rádio e a MTV no início do século.

“É o empoderamento que o punk rock traz. Se eu fosse esperar ser uma baita instrumentista, não teria feito essas músicas”, diz. “Quem me mostrou que era possível dizer um monte de coisa com três acordes foi Dead Kennedys, Bad Brains, Ramones”.

Ao refletir sobre suas origens, Pitty, 41, acabou redescobrindo sua terra natal. “Fui olhando para a Bahia de hoje, e ela foi me invadindo”, explica. “É completamente diferente daquela onde cresci, muito hostil para a música que eu fazia, a alternativa.”

Do que chama de “lado B da Bahia”, Pitty acabou recrutando o BaianaSystem (em “Roda”) e Larissa Luz (“Sol Quadrado”), gente que, segundo ela, consegue se manter interessante e relevante “sem se tornar uma peça publicitária da Secretaria de Cultura”.

Mas a Bahia não é só mais um elemento de “Matriz” —ela é o fio condutor. Em “Bahia Blues”, Pitty —hoje vivendo em São Paulo—, faz uma crônica da própria trajetória e se põe na posição do imigrante nordestina que busca o sucesso nas grandes capitais.

Pela primeira vez na carreira, ela regrava em disco uma música de outro compositor: “Motor”, da banda baiana Maglore. Lazzo Matumbi, veterano cantor baiano, também empresta a voz ao disco.

A balada de “Matriz”, “Para o Grande o Amor”, é uma composição deixada por Peu Souza, guitarrista  baiano que tocou com Pitty em “Admirável Chip Novo”, morto em 2013. Peu é autor da guitarra de “Equalize”. “A filha dele me disse: ‘Ouço meu pai cantando na demo e me lembro de você’”, conta a cantora. “Pensei que poderia ter sido uma música que faríamos juntos.”

Mesmo com temas ligados às raízes da cantora, “Matriz” é o disco mais livre de Pitty até o momento. Além de usar samples, recursos eletrônicos e percussões, ela nunca havia gravado com tantos músicos em estúdios diferentes.

“Meu som é cosmopolita”, declara. “É um disco de rock, mas com vários elementos.”

“Bicho Solto”, por exemplo, é construída em torno de um sample de Dorival Caymmi, enquanto “Roda” tem riffs de cavaquinho com guitarra baiana. “Ninguém É de Ninguém” é toda demarcada por batidas eletrônicas.

Um ano depois de começar a trabalhar em “Matriz”, Pitty enfim encontrou a tranquilidade que precisava para voltar a lançar um disco. Ela abre “Matriz” dizendo que se “domesticou” para “fazer parte do jogo”. “É [sobre] transitar na linha tênue de querer ser comercial o suficiente para viver de música, mas sem me perder. Foi o equilíbrio da minha vida inteira”, reflete.

Neste caso, a busca pela gênese artística é também uma maneira de não perder de vista a própria essência. “Não é sobre saudade, não é nostalgia, não é tradicional. É investigativo.”

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