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Cinema

'Suspíria' mistura violência gráfica sem precedentes a 'Flashdance'

Luca Guadagnino constrói obra angustiante e com vida própria, sem copiar o filme original de Dario Argento

Thales de Menezes
São Paulo

SUSPÍRIA - A DANÇA DO MEDO

  • Quando Estreia nesta quinta (11)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Dakota Johnson, Tilda Swinton, Chloë Grace Moretz
  • Produção Itália/EUA, 2017
  • Direção Luca Guadagnino

O diretor Dario Argento, 78, nunca fez filmes exatamente agradáveis. Ligado ao policial "giallo", espécie de parente italiano do "pulp fiction" americano, ele concretizou uma hábil ligação entre esse gênero de ação e suspense e o cinema de terror. Um realizador inquieto, de estilo próprio e filmes perturbadores.

Praticamente aposentado, Argento está, de certa forma, de volta aos cinemas brasileiros. "Suspíria - A Dança do Medo", do também italiano Luca Guadagnino, é refilmagem de um clássico de Argento, de 1977. Mesmo um tanto diferente, é um filme denso e arrebatador.

Depois do sucesso internacional de Guadagnino no ano passado com o envolvente "Me Chame pelo Seu Nome", indicado ao Oscar, a expectativa do encontro de um cineasta de talento com o mundo delirante de Argento era auspiciosa. E saiu melhor do que previsto.

O novo "Suspíria" pode se definido como uma mistura de "Cisne Negro" com "O Bebê de Rosemary". Ou, de um jeito bem-humorado, pode ser chamado de um "Flashdance" saído do inferno.

A história de "Suspíria", o original do anos 1970, mostra uma jovem bailarina americana que consegue ingressar numa prestigiosa companhia de dança em Berlim Ocidental.

Ela deve substituir uma garota que deixou o grupo de uma maneira não muito bem explicada. Aos poucos, a protagonista percebe que a atmosfera macabra a seu redor não é uma falsa impressão.

No filme de Guadagnino, a bailarina Susie Bannion é interpretada por Dakota Johnson, que está rapidamente perdendo sua ligação com a insossa personagem que a lançou ao estrelato na trilogia "Cinquenta Tons de Cinza".

A Susie criada pela atriz americana transita bem entre a vítima frágil e a heroína destemida. As reações de Dakota diante de colegas misteriosas e professoras sinistras formam realmente o fio condutor do roteiro.

O ano é 1977. Enquanto Berlim e todo o país estão eletrizados pela prisão e pelo julgamento dos integrantes do grupo terrorista alemão Baader Meinhof, cujo desenrolar aparece em fragmentos documentais no filme, Susie vai se aproximando cada vez da fascinante coreógrafa Madame Blanc, papel de Tilda Swinton.

Fora dos ensaios, outra linha narrativa mostra o psiquiatra Kemplerer, que tinha entre suas pacientes a bailarina Patricia (Chloë Grace Moretz), a moça desaparecida que faria o papel destinado agora a Susie. Ele procura por Patricia, acreditando que as mulheres da escola formam uma seita demoníaca.

O dr. Kemperer, um sexagenário, é outra interpretação de Tilda, que aparecerá ainda como um terceiro personagem na reviravolta final da trama.

Em seus minutos finais, "Suspíria" vira tudo de ponta-cabeça para uma conclusão violentíssima. O banho de sangue encerra um terror épico que deve ter deixado Argento muito feliz.

O mérito de Guadagnino é construir uma obra com vida própria, uma viagem angustiante para o espectador, sem copiar o filme original. O roteiro insere modificações sutis que deixam a refilmagem dramaticamente mais encorpada. Enquanto isso, o espetáculo sinistro ganha um caráter sangrento que fica entre um tributo à fúria visual de Argento e uma esperta desconstrução do estilo do mestre.

Além de muita tensão, uma profusão de imagens sensuais das jovens atrizes dançando e a trilha sonora bacana de Thom Yorke, do Radiohead, "Suspíria" traz uma das cenas mais impressionantes do cinema recente: a longa tortura de uma das bailarinas, numa violência gráfica sem precedentes.

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