Bailarinos transexuais juram lealdade à bandeira em obra do pavilhão do Brasil em Veneza

Curta 'Swinguerra', de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, estreou diante de uma plateia lotada

Still de

Still de "Swinguerra", Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, 2019 Bárbara Wagner e Benjamin de Burca / Fundação Bienal de São Paulo / Divulgação

Silas Martí
Veneza

Não foi só a chuva forte e o vento frio de abortar a primavera italiana que deram cara de climão à abertura do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza. O filme em que bailarinos transexuais batem continência e prometem lealdade à bandeira do Brasil, obra da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, tinha tudo para causar alvoroço num momento de forte polarização política.

Mas tudo correu bem. “Swinguerra”, curta-metragem e uma série de fotografias desses dançarinos da cena brega e funk do Recife, estreou diante de uma plateia lotada de críticos hipnotizados pelos movimentos sensuais de fundo militar. “Dá vontade de bater palmas”, dizia uma crítica.


“O Brasil pelo qual a gente se interessa e que a gente conhece não é o Brasil de Bolsonaro”, dizia Bárbara Wagner. “A gente está muito feliz de representar um Brasil que está resistindo. Mas o filme não é um panfleto. Trabalhamos com a coreografia desses grupos, que tem uma influência militar, a questão da mulher negra transgênero que tem um discurso de honra à pátria.”

Eduarda Lemos, a dançarina trans estrela do filme, foi tietada por autoridades, e os artistas e o curador, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, fizeram um discurso solene, lembrando a liberdade de expressão —o pavilhão brasileiro em Veneza é uma operação pública, organizada pela Fundação Bienal de São Paulo e financiada pelo Ministério das Relações Exteriores.

Os chefes ali presentes posaram para retratos oficiais diante das obras, como de praxe, e fizeram planos para o futuro, tentando passar um clima de normalidade na esteira dos profundos cortes no financiamento à cultura que vêm preocupando a classe artística.

“Estou muito feliz de ver a adesão do público. É o pavilhão que tem mais movimento na abertura”, dizia o secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro, Henrique Medeiros Pires.

Questionado sobre possível censura às artes depois do veto do presidente a um comercial do Banco do Brasil com personagens semelhantes aos retratados pelos artistas, Medeiros Pires disse que os contextos são diferentes e defendeu a liberdade de expressão.

“É outro contexto. Não cheguei a assistir à propaganda do Banco do Brasil, mas aqui é outra história. A arte é a antena do mundo, e o artista está mostrando outra coisa, não está buscando cliente”, disse Pires. 

“Há uma garantia maravilhosa na Constituição que diz que a criação é livre. Enquanto a Constituição garantir, pode haver algum senão comercialmente, mas no cultural e no artístico não tem como fazer. A gente não interfere. Aliás, esse pavilhão foi inaugurado em 1964. Não há nada mais simbólico do que isso, se fosse para considerar uma questão política. Não tem nenhuma turbulência.”

Wagner, aliás, entende a turbulência de outra forma. “A gente não está fazendo a propaganda do Banco do Brasil. Se estivesse, talvez houvesse censura, mas tem alguma coisa a mais no trabalho artístico que abre caminho.”

Pérez-Barreiro, que com o pavilhão parece se redimir pelo fracasso na última Bienal de São Paulo, confessa que trabalharam numa “situação de alto risco”, mas lembra que políticos e diretores da fundação só viram o trabalho em sua estreia mundial, não havendo tempo para cortes ou censura.

“O fato de a gente ter aberto o pavilhão é algo a se celebrar”, diz Wagner. “Todos estão preocupados, os produtores e os dançarinos estão preocupados, mas a gente leva nossa pesquisa até as últimas consequências.”

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