Bienal de São Paulo vai durar mais e se espalhar pela cidade em 2020

Mostra começará com eventos já em março e ocupará outros 20 endereços na capital

Clara Balbi
São Paulo

A Fundação Bienal divulgou, nesta quinta (2), o projeto de curadoria da 34ª Bienal de São Paulo, que acontece no ano que vem.

Assinado pelo italiano radicado no Brasil Jacopo Crivelli Visconti e um time formado pelo curador-adjunto Paulo Miyada e os curadores-convidados Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez, o plano é ambicioso, e expande tanto no calendário quanto a presença geográfica do evento.

A 34ª edição da mostra inicia sua programação em março e apresenta, até agosto, três exposições individuais no pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera. Organizados em parceria com seis instituições internacionais, os solos anteciparão trabalhos que esses artistas exibirão no evento oficial a partir de setembro.

Já naquele mês, ao menos 20 espaços culturais e artísticos da cidade inaugurarão mostras individuais dos outros artistas participantes. Os locais vão desde instituições renomadas, como o Masp e a Pinacoteca, a espaços alternativos, como o Pivô, no edifício Copan, ou o sistema Sesc, que tem unidades espalhadas por toda a cidade.

“Procuramos construir o mapa mais diversificado possível, para alcançar vários públicos”, diz Crivelli Visconti. “Além disso, a programação viabiliza exposições que talvez não fossem realizadas de outro modo, já que a Bienal tem uma captação de recursos mais sólida.”

Com orçamento médio de R$ 23 milhões nas últimas três edições, sendo cerca de metade desse valor captado via leis de incentivo, a Fundação Bienal ainda assim não deverá sofrer com as recentes mudanças na lei operadas pelo governo Bolsonaro. Isso porque o teto de R$ 1 milhão imposto a cada projeto a partir de agora não será aplicado a grandes festivais de arte como a Bienal.

A estratégia de ampliação, explica o curador, é uma tentativa de tornar mais tangível a ideia que norteia a 34ª Bienal. Sem tema ou título definidos, mas organizando-se em torno do conceito de “relação”, ele propõe uma reflexão sobre o crescimento das chamadas bolhas de opinião e a recusa do debate entre visões diferentes que caracteriza a sociedade hoje.

“O público vai poder entrar em contato com a poética individual dos artistas e, em outro lugar e contexto, ver como essa produção se articula com uma mostra mais temática”, diz.

Questionado se o tópico —que se baseou em reflexões do escritor martinicano Édouard Glissant, que reivindicou uma identidade própria para as comunidades das Antilhas, e do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, conhecido pelo estudo dos povos ameríndios— era uma tentativa de retomar a pauta política depois de uma edição criticada por sua desconexão com a realidade social, Crivelli Visconti afirma que não.

“Mais do que politizar, a ideia é falar de arte a partir do momento em que estamos vivendo, não só no Brasil, mas no mundo”, afirma o curador. “Essas questões provavelmente vão emergir na produção dos artistas, mas a premissa é mais poética, digamos assim.”

O debate que norteia a 34ª edição da Bienal não é inédito na história do evento. Em 2006, na 27ª edição da mostra, Lisette Lagnado escolheu como tema “Como Viver Junto”, sobre a convivência com o diferente. Também a estratégia de dispersar a exposição pelo restante da cidade não é nova, embora jamais tenha atingido a dimensão planejada por Crivelli Visconti.

Na 30ª edição, em 2012, o venezuelano Luis Pérez-Oramas, então curador-chefe, posicionou obras em outros oito espaços além do edifício projetado por Oscar Niemeyer. Dois deles eram públicos —a avenida Paulista e a estação da Luz.

Se houve quem tenha brincado, na última exposição, que a Bienal tinha abraçado o neoliberalismo, com a decisão do curador espanhol Gabriel Pérez-Barreiro de delegar a organização da mostra a sete artistas-curadores, desta vez pode ser que o chiste gire em torno de outra prática econômica, a do monopólio. Afinal, São Paulo verá em 2020 um ano inteiro de Bienal, além de três meses da mostra coletiva pautando grande parte do circuito de exposições institucionais da cidade.

Atual presidente da Fundação Bienal, José Olympio da Veiga Pereira enxerga com bons olhos o esforço conjunto das instituições em torno do evento. “A cada bienal, os museus tinham programações caprichadas, mas que não necessariamente estavam em diálogo”, afirma Pereira. “O que estamos fazendo agora é fazer com que esse conjunto de instituições trabalhe em torno de um projeto comum, sem perder sua individualidade. Eu gosto de sonhar grande.”

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