Bamba do jazz, Ron Carter promete show como se fosse o último em SP

Membro do mítico quinteto de Miles Davis, músico está no Guinness por ter gravado 2.221 músicas

Thales de Menezes
São Paulo

O número oficial que está registrado nos recordes do “Guinness Book”: 2.221. A data da certificação é 15 de setembro de 2015. Desde então, o contrabaixista americano Ron Carter, 81, já gravou pelo menos outras 31 músicas.

A lenda do jazz segue na ativa, como vai demonstrar no próximo domingo (12), em São Paulo, em dois shows na mesma noite.

Gravar 2.252 músicas (ou mais) torna Carter o baixista que mais trabalhou em estúdio na história do jazz. Mas ele nem precisava desse número superlativo para cravar seu lugar no panteão do gênero. Tem 57 álbuns excelentes como líder de banda, mais algumas centenas nos quais acompanha gigantes da música. Uma carreira inigualável.

Para os fãs que puderem vê-lo no palco do Bourbon Street, a grande emoção vai carregar a lembrança de sua participação na segunda formação do Miles Davis Quintet, uma das maiores reuniões de bambas do jazz em todos os tempos. Para alguns críticos, o maior combo musical que já existiu.

Entre 1963 e 1968, Miles reuniu Carter, Herbie Hancock (teclados), Wayne Shorter (sax) e Tony Williams (bateria) para turnês célebres e alguns discos presentes em qualquer lista honesta dos melhores álbuns da história. Basta conferir, entre outros, “E.S.P.” (1965), “Miles Smiles” (1967), “Nefertiti” (1968) e “Miles in the Sky” (1968).

Ao dar entrevista sobre o show em São Paulo, Carter demonstra não ficar entediado com eternas  perguntas a respeito de sua relação com o maior trompetista do jazz.

“Mais do que aspectos técnicos, o que aprendi com Miles é uma maneira de encarar a música. Para ele, cada show era a chance de você fazer o seu melhor. Pode ser que aquela noite seja sua melhor apresentação na vida, pode ser também a última, ninguém sabe o que virá depois. A missão é encarar cada show como a oportunidade de dar o máximo.”

No show do Bourbon, Carter estará no palco com o guitarrista americano Russell Malone e o pianista nicaraguense Donald Vega, formação que tem rodado o mundo nas temporadas recentes.

“Escolher músicos para tocar com você é um processo sem fórmula definida. Afinidades pessoais e musicais nascem por caminhos diferentes. Mas gosto de trabalhar com músicos que entendem de composição. Para mim, facilita muito que eles tenham essa compreensão.”

Carter foi “sideman” de uma constelação. Além de tocar em oito álbuns com Miles e em vários outros gravados por seus parceiros de quinteto, ele acompanhou Milt Jackson, Freddie Hubbard, Dexter Gordon, Chet Baker, Wes Montgomery, Horace Silver e Chick Corea, para lembrar apenas alguns nomes que 
são verbetes de qualquer enciclopédia do jazz.

“Persigo a boa música onde ela estiver”, diz o baixista. Nessa jornada, ele emprestou seu estilo sólido e envolvente de tocar a artistas pop, ultrapassando os limites do jazz. Ajudou a encorpar o instrumental de discos gravados por Roberta Flack, Harry Connick Jr., Paul Simon, Billy Joel e, talvez sua mais surpreendente associação, o grupo de hip hop A Tribe Called Quest, no álbum “The Low End Theory”, de 1991.

Admirador da música brasileira (“Quem não é?”, ele pergunta), Carter tocou com Tom Jobim numa trilogia fundamental de seus álbuns gravados nos Estados Unidos: “Wave”, de 1967, e “Stone 
Flower” e “Tide”, ambos lançados em 1970.

Outras contribuições em trabalhos de brasileiros incluem dois discos com Hermeto Pascoal, “Hermeto” (1971) e “Slaves Mass” (1976), e álbuns de Airto Moreira (“Free”, 1972) e Rosa Passos (“Entre Amigos”, 2003).

Além de manter uma agenda ativa de shows, Carter sai à noite para ver novos nomes da cena. “Ali, na plateia, posso ter novas ideias para minha música vendo os outros tocarem. Acho que a música hoje está em boas mãos. Os jovens tocam bem e não desprezam o que já foi feito, eles inovam a partir do tradicional.”

Ele ensina em escolas de música há mais de 30 anos. Em 2008, passou a dar aulas de baixo na Juilliard School, em Nova York.

Para os aspirantes a uma carreira no jazz, diz que pode resumir seus conselhos a duas orientações básicas. “Arranje um professor de seu instrumento e estude composição. O professor trará disciplina a sua vida, e entender composição é fundamental para tocar gêneros diferentes.”

Carter acredita que a disciplina, que facilitou a ele ter uma carreira de tantas colaborações em discos e performances ao vivo, veio do rigor dos estudos de música clássica. 

Ele começou a tocar cello aos dez anos e queria seguir tocando em salas de concerto, mas sentiu a pressão no início dos anos 1950, num ambiente com rara presença de afro-americanos. “Não mudou muito, certo?”

Ron Carter

  • Quando Domingo (12), Domingo (12), às 18h e 21h
  • Onde Bourbon Street, r. dos Chanés, 127, Moema, São Paulo, tel. (11) 5095-6100
  • Preço De R$ 245 a R$ 275

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