Karim Aïnouz faz filme sobre machismo para falar com eleitores desse governo

'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão' narra a história de duas irmãs no Rio de Janeiro pré-bossa nova

Diretor Karim Aïnouz e as atrizes Carol Duarte e Julia Stockler
Diretor Karim Aïnouz e as atrizes Carol Duarte e Julia Stockler - Regis Duvignau/Reuters
Guilherme Genestreti
Cannes (França)

Na cena mais marcante do filme “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, a personagem-título experimenta a sua noite de núpcias. Virgem naqueles anos 1950, ela nunca viu um homem nu e agora tem um diante de si. O diretor cearense Karim Aïnouz filma tudo com algum humor, mas o saldo é amargo.

“Aquilo é quase um estupro. Não é consentido do ponto de vista subjetivo”, diz o cineasta a este repórter um dia após o seu longa estrear no Festival de Cannes. “A gente nunca vai saber a dor e o prazer que as mulheres daqueles anos, antes da pílula, experimentaram na primeira vez.”

É em torno dessas questões que a produção gira em torno. Inspirada no livro homônimo da escritora Martha Batalha, narra a história de duas irmãs que sucumbem diante do machismo estrutural no Rio de Janeiro pré-bossa nova.

Criado numa família de mulheres, Aïnouz conta que, antes de aceitar o convite para dirigir o filme, já nutria um desejo de falar da geração de sua mãe e se embrenhar nas histórias de pé de ouvido que ouvia na infância —e também nas que não ouvia. “A gente sempre sabe como foi a primeira noite deles, mas nunca como foi a delas”, diz.

Antes de se lançar nas filmagens, o cineasta fez entrevistas com mulheres que viveram naqueles anos e sondou suas experiências sexuais e a vivência delas numa década em que o ginecologista ainda se dirigia aos maridos para comunicar qualquer coisa que houvesse com as pacientes.

Para entrar nesse terreno ele se vale das convenções do melodrama, mas o revisita sob as cores saturadas que marcam a sua obra. As cenas carregadas que recriam a boêmia carioca dos anos 1950, aliás, remetem a seu “Madame Satã”, mas embaladas para falar com um público bem maior do que o nicho.

“Eu queria falar com esses milhões de pessoas que votaram nesse governo. E o melodrama é a forma de chegar às pessoas de forma mais eficaz”, diz o cineasta, que cita a teledramaturgia de Janete Clair e tece elogios à época em que “as novelas eram boas”.

“A Vida Invisível”, que deve estrear em novembro no país, é um dos três títulos que a produtora RT Features conseguiu emplacar em Cannes e a mais brasileira delas. As outras têm na direção os americanos Danielle Lessovitz e Robert Eggers.

Desse último, aliás, veio a maior surpresa desta edição do festival. “The Lighthouse”, história de terror com Willem Dafoe e Robert Pattinson, gerou grandes filas e recebeu aclamação praticamente unânime da crítica internacional.

O paulista Rodrigo Teixeira, que produziu o longa, diz que o fuzuê não foi surpresa. “Meu olho encheu de lágrima quando vi o filme pela primeira vez.”

Em Cannes, ele anunciou que irá produzir a nova obra do cineasta James Gray, "Armageddon Times". A história, semiautobiográfica, terá o atual presidente Donald Trump como um dos personagens.

Isso porque a história fala do embate entre um diretor de escola colegial no Queens e o chefe do conselho daquela instituição, que na época em que Gray estudou era o pai do atual presidente americano.

"O Donald passava lá para visitar e fazia bullying com os alunos", conta Teixeira.

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