Como entrei de penetra no adeus a Michael Jackson, maior show-funeral da história do pop

'Entramos pelo portão dos familiares; meu coração batia tão descompassado com a possibilidade de ser desmascarado', lembra jornalista

Jotabê Medeiros

Na frente do Staples Center, as pilhas de coroas de flores contrastavam com a festa dos camelôs —bonés do rei do pop a US$ 10 cada um, cópias de fotos “autografadas” chegavam a US$ 35, falsos programas do funeral por US$ 10. Os hotéis tinham um ágio extraordinário: um quarto no Holiday Inn, em frente ao ginásio, tinha subido de US$ 150 para US$ 250.

Eu conseguira ser um dos 2.200 jornalistas credenciados para o Michael Jackson Public Memorial Service, em 7 de julho de 2009, maior show-funeral da história do pop

Mas isso não era vantagem: a imprensa acompanharia do lado de fora, via telão.

Era anticlímax total: nenhum jornalista veria nem Brooke Shields nem o caixão (exceto os amigos do defunto, como Larry King). Isso no mínimo antecipava, para os próximos anos, mais teorias conspiratórias do tipo “Michael Jackson não morreu, vive como bilheteiro de um parque de diversões na Flórida”.

Helicópteros de redes de TV e outros alugados congestionavam o céu de Los Angeles. Em terra, 3.300 policiais tinham tomado o centro da cidade. Não passava nem pensamento —só quem tinha os ingressos e a pulseira dourada (exclusiva de convidados da família) e azul (17,5 mil fãs sorteados, na arquibancada) penetrava além do cordão de isolamento que fechara dezenas de quadras ao redor.

Estávamos ali com nossos cafés, parados, entrevistando os fãs brasucas com bandeiras do Brasil nas costas, quando vimos uma grade aberta. 

Sérgio Dávila [diretor de Redação da Folha, à época correspondente do jornal em Washington], amigo jornalista, arrastou um pouquinho a grade e entramos os dois, mas não foi uma grande façanha: os temerários penetras jamais passariam pelos portões com guardas e detectores de metais. A menos que conseguissem um ticket e uma pulseira.

Fiquei mapeando a situação: à esquerda, todos os portões eram muito guardados; na extrema direita, havia um portão que parecia muito especial. De fato, logo vimos que era reservado à família e às pessoas de maior intimidade.

Foi quando vi, saindo da garagem lá no fundão, um cara realmente bacana: Steve Manning, amigo da família Jackson havia 40 anos. Não que eu o conhecesse, mas tinha visto sua face em quase todos os canais na noite anterior. “Michael Jackson’s friend” era sua credencial.

Entabulei uma conversa com ele. “Michael amava o Brasil. Sempre quis voltar”, disse Manning. “Ele gravou até um videoclipe em Salvador, não foi?” Essa caminhada falada durou uns dois minutos, não mais. Foi quando chegamos ao portão e eu estanquei. Manning caminhou mais dois passos e se voltou. 

“Você não vai entrar?” Não, querido, não tenho tickets. Ele então enfiou a mão no bolso do paletó e tirou dois tickets do bolso. Pediu apenas que os devolvesse mais tarde, que queria guardar de lembrança. Mas nunca mais nos encontramos, ainda guardo os tickets.

Ingresso para o funeral de Michael Jackson conseguido na última hora pelo jornalista Jotabê Medeiros
Ingresso para o funeral de Michael Jackson conseguido na última hora pelo jornalista Jotabê Medeiros - Arquivo pessoal

Entramos pelo portão dos familiares. Meu coração batia tão descompassado com a possibilidade de ser desmascarado que apitei duas vezes no detector de metais. Suei frio. Mas dei um jeito de passar, aproveitando a distração da segurança com as celebridades, de Magic Johnson a Martin Luther King 3º.

De cara, vi o pastor Jesse Jackson ladeado por duas mulheres muito elegantes e pedi para tirar uma foto dele. Ele caprichou na pose. Só depois vi quem era uma das garotas: La Toya Jackson, irmã de Michael, que me encarava nada amistosa. Câmeras eram terminantemente proibidas.

Cheguei à poltrona um da fila 18 às 10h15, bem a tempo de ver o caixão dourado de Michael Jackson passando pelo corredor em direção ao pé do palco, onde o depositaram. Pouco à frente, eu via a cabeça de Mike Tyson, embora fossem indistinguíveis 

cabeça e pescoço. Mickey Rooney estava mais adiante. Smokey Robinson, Stevie Wonder, Lionel Richie, Queen Latifah, Berry Gordy e Usher subiram ao palco. E ela: Brooke Shields, tão bonita quanto aos 18.
Eu, que detesto Mariah Carey, choraminguei quando ela cantou “I’ll Be There”.

Quando tudo acabou, todos os discursos, de Paris Jackson ao reverendo Al Sharpton, retiraram o caixão rapidamente pelo túnel dos atletas. Ficaram só os cravos pelo chão. Pus um na lapela. Ninguém saía do ginásio, paralisado. Parecia que ele ia voltar a qualquer momento dançando o moonwalk.

Jotabê Medeiros, jornalista e escritor, é autor de ‘Belchior - Apenas um Rapaz Latino-americano’ (Todavia)

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