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Cinema

'Graças a Deus' vai além da bipolaridade do bem ou do mal

François Ozon trata de pedofilia na Igreja sem se limitar a fazer mais um filme de denúncia

Cássio Starling Carlos

Graças a Deus (Grâce à Dieu)

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Melvil Poupaud, Denis Ménochet, Swann Arlaud, Bernard Verley
  • Produção França/Bélgica, 2018
  • Direção François Ozon

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O público que segue fiel ou o que ostenta resistência aos filmes de François Ozon responde com simpatia ou antipatia aos motivos que o diretor francês escolheu para ocupar um lugar relevante. O apelo à transgressão, a ironização da banalidade moral e o interesse pela sexualidade como uma força que não se conforma são os mais evidentes.

Mas para abordar em “Graças a Deus” o espinhoso tema do abuso sexual cometido por padres o cineasta teve de baixar seu característico tom de provocação sem se desviar de uma questão fundamental de sua filmografia: a sexualidade como vetor de liberação ou de sujeição.

O filme reconstitui o rumoroso caso de Bernard Preynat, um padre que continuou a celebrar missas em Lyon, apesar de um movimento civil ter denunciado os abusos dele contra meninos sob sua guarda ao longo de décadas.

Para tratar um assunto dessa gravidade, Ozon precisou quase se despersonalizar e vestir um uniforme convencional a fim de expor a posição dos envolvidos no tabuleiro em que moral e fé jogam juntas.

Não se trata de uma forma neutra, como nenhuma é, mas de uma sobriedade que permite identificar outras cores além da simplória bipolaridade do bem ou do mal.

O recurso à voz over é uma convenção certamente irritante, mas ela aqui adquire outros sentidos. Sua utilização é persistente no primeiro bloco, que apresenta o drama de Alexandre Guérin (Melvil Poupaud), pai religioso que se indigna contra o acobertamento que a Igreja insiste em dar ao padre abusador.

A onipresença da voz de Alexandre serve, nesse momento, não só para esclarecer o contexto da história, mas sobretudo para contrapor o dizer ao silenciar, a afirmação à negação que a religião adota para se proteger.

A transição para o segundo protagonista, o agora ateu François Debord (Denis Ménochet), torna ainda mais clara a ênfase na oposição entre tornar público e ocultar, quando sua família abre seu baú de dores reprimidas e ele decide midiatizar o caso.

A progressão de impactos tem seu apogeu com a entrada de Emmanuel Thomassin (Swann Arlaud), terceiro protagonista que traz no corpo e na afetividade atormentada as cicatrizes abertas do abuso.

Em vez de fazer mais um filme de denúncia, Ozon veste a camuflagem do classicismo para repercutir mais alto.

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