Descrição de chapéu

Símbolo da aristocracia de NY, Gloria Vanderbilt foi 'gossip girl' da vida real

Uma das pioneiras do jeans e herdeira de magnata, ela fez dívidas e teve de ir viver na casa do filho

Gloria Vanderbilt com roupas da peça ‘The Swan’, em 1954  Gordon Parks/The Life Picture Collection/Getty Images

Pedro Diniz

Não é aleatória a cena em que Serena van der Woodsen, a pobre menina rica de “Gossip Girl”, desce na Grand Central de Nova York no primeiro episódio do seriado. Seu sobrenome, assim como a construção centenária, estava ligado à sua musa inspiradora, Gloria Vanderbilt, que até esta segunda-feira (17) era último bastião do glamour aristocrático da Nova York do século 19.

Morta aos 95 anos, em decorrência de um câncer no estômago, foi casada quatro vezes e herdou montanhas de dinheiro do tataravô magnata das ferrovias, Cornelius Vanderbilt. Assim como a persona real, Lilly van der Woodsen, mãe de Serena na série, mantinha vastas coleções de maridos, filhos e obras de arte.

Seria injusto, porém, minguar a importância de Gloria Vanderbilt às fofocas da alta sociedade pré-blogs. Em se tratando de elegância, ela era uma espécie de Costanza Pascolato dos Estados Unidos.
O segredo que ninguém conta, para citar o jargão da série pop, é que ela ajudou, nos anos 1970, a libertar garotas comuns dos vestidos e roupas herdados dos armários do pós-Guerra.

Tingidas por um índigo profundo, as calças jeans de Vanderbilt tinham cintura alta, eram levemente ajustadas para se diferenciar dos cortes masculinos e levavam seu nome na etiqueta. Isso muito antes da logomarca que tomou a costura nas décadas seguintes.

Era uma fórmula perfeita, tocada em parceira com o presidente da gigante têxtil Mohan Murjani, Warren Hirsch, para fazer a marca faturar mais de US$ 100 milhões por ano em valores da época.
Gloria, assim, passaria a ser vista não só pela forma elegante de combinar roupas, mas por criar as tendências e diferentes formas de usá-las.

Da mesma forma que a estilista Mary Quant teve o nome e a criação ofuscados por André Courrèges (1923-2016), reconhecido como “pai da minissaia” apesar de a inglesa ter lançado anos antes a peça, só que um pouco mais longa do que a do francês, Vanderbilt foi eclipsada pela agressiva campanha de grifes italianas e conterrâneas pela coroa do jeans.

A montanha-russa de uma vida marcada por gastos exorbitantes e escândalos familiares subjulgou a imagem de self-made woman. Calvin Klein, Diesel, Levi’s, Lee, grifes geridas por homens e que lançavam mão de publicidade lasciva, tomaram o espaço da face mais interessante da herdeira de casos midiáticos.

Os anos 1990 foram impiedosos com a estilista, mais vista como socialite e ex-mulher de figurões do que como a garota que desafiou o destino de seus pares da região nobre do Upper East Side e criou a própria fortuna —ainda que tenha perdido boa parte dela por dívidas com o fisco e passado a viver em um apartamento do filho famoso e âncora da CNN Anderson Cooper.

Chegou a escrever poemas, dicas de decoração e livros de memórias nos quais esmiuçou suas tragédias particulares. Diferenciou-se da nobreza decrépita, mas por toda vida carregou o fardo de ter o sobrenome mais pesado que o nome.

O tempo colocou em evidência o ícone de estilo, a caricatura do glamour fora de moda e um tanto francês demais, rechaçado pelo nascente estilo yuppie propagado pelos engomadinhos de Wall Street. Vale lembrar, ela passou parte da infância no país europeu e herdou costumes bem diferentes da etiqueta americana, mais objetiva e sem firulas. No fim das contas, o desajuste parecia acompanhá-la desde cedo.

Toda a noção de igualdade de gênero gestada no século 20, que lhe permitiu furar a própria bolha social e hoje baseia o pensamento ocidental sobre o papel da mulher, não foi perene na vida de Gloria Vanderbilt. 

É como se quaisquer contribuições que tenha desenvolvido na literatura, nas artes e na moda não tivessem sido suficientes para que recebesse reconhecimento como alguém maior do que a pobre menina rica e, principalmente, melhor do que o “gossip” em torno de sua intimidade.

​Gloria deixa os filhos Anderson Cooper, Christopher Stokowski e Leopold Stanislaus Stokowski.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.