Descrição de chapéu Artes Cênicas

Autora convoca ator pornô e a própria mãe ao digerir seus traumas no palco

Peça 'Stabat Mater', de Janaina Leite, costura arquétipos a crítica sobre representações da mulher

Gustavo Fioratti
São Paulo

Ainda no início da peça “Stabat Mater”, que está em cartaz no Centro Cultural São Paulo, a atriz e autora Janaina Leite conta a história de uma menina que, aos três anos, se aproveitou de uma distração momentânea da mãe para enfiar um ferro de lareira no pescoço da irmã, que tinha um ano. 

Foi grave, mas passou, as duas irmãs continuaram suas vidas. Anos se passaram até que a mais velha começasse a mostrar “surtos de ansiedade, vômitos, tremores, dores sem causa aparente, medos paralisantes, vontade súbita de chorar”. 

Adolescente, conta Leite, ela teve os elementos necessários para entender a gravidade do que havia acontecido. A atriz diz que o nome disso é segundo tempo do trauma.

A partir dali, passou a criar imagens para o termo psicanalítico, que estabelece, justamente nesse segundo tempo, elemento fundamental para que o trauma seja compreendido, fechando um ciclo.

Soa hermético, mas há humor. A atriz se dedica a um tipo de trabalho que foi ganhando campo no teatro e que parte de questões pessoais. 

A peça se desdobra em diversas percepções dela sobre o papel da mulher. Leite se põe no centro da criação, conta sua história e traz ao espectador associações com os arquétipos do feminino no transcorrer da história. 

O espetáculo é uma segunda experiência dela no campo da performance. Desde “Conversas com Meu Pai”, que começou a apresentar em 2014 e continua trazendo a cartaz ainda hoje, a atriz expõe no palco questões em torno de sua sexualidade, com revelações pessoais que soam dolorosas à plateia.

“Conversas” e “Stabat Mater” são peças complementares. “Pretendo apresentar uma temporada casada. Seria interessante ver os dois trabalhos juntos”, diz a autora. Se o pai dela era o centro na primeira peça, agora é a mãe —ela inclusive está em cena.

O segundo tempo do trauma seria a própria experiência da maternidade? Mais adiante na peça, Leite conta que teve dois filhos. Com a mãe ali presente, tendo o rosto coberto por um creme hidratante ou algo do tipo, fecha-se o ciclo de uma percepção dupla —o que é a mãe para o filho, e o que é ser mãe para a mãe.

Conforme essa percepção é apresentada, Leite usa a figura da Virgem Maria para mostrar o papel que coube à figura sagrada da mãe na sociedade cristã. 

“É curioso o tema dessa concepção sem sexo ter se tornado tão determinante”, diz.

Sua percepção sobre os arquétipos femininos vai ganhando corpo e complexidade até que ela joga ao espectador elementos de uma outra face de sua pesquisa —como a mulher é retratada em filmes eróticos e também em filmes de terror, muitas vezes pega pelas entranhas (em ambos os casos) e submetida à dor provocada pelo homem.

Para experimentar uma fissura nesse complexo tecido de imagens, a atriz vai apresentar no palco uma experiência anterior à peça. Ela conta para a plateia que queria um ator pornô presente no palco. 

Para selecionar o sujeito, houve um processo de entrevista em que ela questionava: “Você topa fazer uma cena de sexo comigo, dirigida pela minha mãe?”. A partir daqui é spoiler, exceto o fato de que, sim, haverá um ator em cena.

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